{"id":163,"date":"2019-10-11T11:58:58","date_gmt":"2019-10-11T14:58:58","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/?p=163"},"modified":"2023-02-15T13:16:59","modified_gmt":"2023-02-15T16:16:59","slug":"o-conhecimento-cientifico-na-construcao-do-brasil-a-demarcacao-de-fronteiras-com-a-bolivia-entre-1895-e-1901","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/o-conhecimento-cientifico-na-construcao-do-brasil-a-demarcacao-de-fronteiras-com-a-bolivia-entre-1895-e-1901\/","title":{"rendered":"O conhecimento cient\u00edfico na constru\u00e7\u00e3o do Brasil: a demarca\u00e7\u00e3o de\u00a0fronteiras com a Bol\u00edvia entre 1895 e 1901"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><strong>Bruno Capil\u00e9<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para aqueles que nasceram na segunda metade do s\u00e9culo XX em diante, o Brasil \u00e9 um fato. Os estados e regi\u00f5es que o comp\u00f5em, a ideia de uma na\u00e7\u00e3o politicamente unificada e a exist\u00eancia de uma cultura e sentimento nacional s\u00e3o aspectos dados como naturais e presentes desde tempos imemoriais. A princ\u00edpio, a ideia de um territ\u00f3rio geograficamente delimitado e compartilhado por uma mesma popula\u00e7\u00e3o \u00e9 a caracter\u00edstica principal elencada quando pensamos na na\u00e7\u00e3o. No entanto,ser\u00e1 este territ\u00f3rio t\u00e3o natural quanto se pensa? O que os contornos territoriais do Brasil podem noscontar sobre sua hist\u00f3ria?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A demarca\u00e7\u00e3o de fronteiras externas \u00e9 um processo longo que remonta aos tempos do dom\u00ednio colonial portugu\u00eas e suas disputas territoriais com a Espanha, passando pelos governos imperiais de D. Pedro I e D. Pedro II. Nos primeiros anos da Rep\u00fablica essa quest\u00e3o ainda possu\u00eda um grande espa\u00e7o entre os interesses e preocupa\u00e7\u00f5es do governo federal. Neste cen\u00e1rio, tratava-se de assegurar a unidade do territ\u00f3rio sob a marca do poder republicano para garantira consolida\u00e7\u00e3o desse modelo pol\u00edtico e dos grupos envolvidos nele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seu artigo <em>Ci\u00eancia,&nbsp; fronteiras&nbsp; e&nbsp; na\u00e7\u00e3o:&nbsp; comiss\u00f5es brasileiras&nbsp; na&nbsp; demarca\u00e7\u00e3o dos&nbsp; limites&nbsp; territoriais&nbsp; entre&nbsp; Brasil&nbsp; e&nbsp; Bol\u00edvia,&nbsp; 1895-1901, <\/em>Moema Vergara nos d\u00e1 uma amostra deste processo ao tratar da disputa travada entre Bol\u00edvia e Brasil na atual regi\u00e3o do Acre. \u00c9 somente a partir da declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia em 1822 que podemos associar esses esfor\u00e7os de demarca\u00e7\u00e3o ao projeto de constru\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o. A delimita\u00e7\u00e3o territorial \u00e9 parte essencial deste projeto, pois \u00e9 a partir da unidade do territ\u00f3rio que podemos projetar uma unidade pol\u00edtica, cultural e lingu\u00edstica, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"850\" height=\"469\" src=\"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/mapa-cruls-1901.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-165\" srcset=\"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/mapa-cruls-1901.png 850w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/mapa-cruls-1901-300x166.png 300w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/mapa-cruls-1901-768x424.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 850px) 100vw, 850px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fig 1: Mapa das cabeceiras do rio Jaquirana, feito por Luiz Cruls e Adolfo Ballivian (1901).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo, tornar a na\u00e7\u00e3o algo real implica em constru\u00ed-la tamb\u00e9m como realidade territorial. Mas como fazer isso? \u00c9 aqui que surge um elemento pouco mencionado e para muitos surpreendente: a ci\u00eancia. \u00c9 a partir do trabalho de expedi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas que tais demandas podem ser viabilizadas nas regi\u00f5es onde ser\u00e3o demarcadas as fronteiras. Essas expedi\u00e7\u00f5es mobilizam uma s\u00e9rie de t\u00e9cnicas e conhecimentos cient\u00edficos em prol da constru\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o, calculando, medindo e coletando informa\u00e7\u00f5es sobre determinada regi\u00e3o para que os tra\u00e7ados fronteiri\u00e7os possam ser discutidos pelos membros dos governos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Moema Vergara analisa o trabalho das tr\u00eas expedi\u00e7\u00f5es brasileiras e suas respectivas comiss\u00f5es designadas para explorar a regi\u00e3o conhecida atualmente como o Acre, no intuito de encontrar a nascente do rio Javari que seria utilizada como ponto de demarca\u00e7\u00e3o para as fronteiras com a Bol\u00edvia e Peru. A autora ressalta que as disputas pol\u00edticas s\u00e3o parte fundamental desse processo, visto que est\u00e1 em jogo os interesses de cada pa\u00eds envolvido e, sobretudo, sua soberania. Assim, entre 1895 e 1901 Greg\u00f3rio Thaumaturgo de Azevedo, Augusto Cunha Gomes e Luiz Cruls lideraram trabalhos distintos na regi\u00e3opara, al\u00e9m de mapear a mencionada nascente, coletar o maior n\u00famero de informa\u00e7\u00f5es poss\u00edvel sobre a fauna, flora, clima, geologia e vida social daquele espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A astronomia ocupa um lugar central no trabalho das expedi\u00e7\u00f5es, utilizando instrumentos cient\u00edficos como o teodolito para obten\u00e7\u00e3o de coordenadas geogr\u00e1ficas de latitude e longitude. Vergara destaca que a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento n\u00e3o era algo secund\u00e1rio, mas sim parte obrigat\u00f3ria das expedi\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que a partir delas se tornava poss\u00edvel conhecer os espa\u00e7os afastados do litoral sul, eixo da pol\u00edtica e economia do pa\u00eds. Denominados \u201csert\u00f5es\u201d, esses espa\u00e7os passam a habitar o imagin\u00e1rio social dos moradores da capital carioca a partir das informa\u00e7\u00f5es recolhidas pelos membros das expedi\u00e7\u00f5es e transformadas em relat\u00f3rios muitas vezes publicados pela imprensa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, esp\u00e9cimes de plantas recolhidas, anota\u00e7\u00f5es sobre popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, descri\u00e7\u00f5es de rios, tipos de solo e clima contribuem para formar uma imagem daquela parte da regi\u00e3o amaz\u00f4nica al\u00e9m de servir para os tratados de fronteiras.O conhecimento adquirido pela ci\u00eancia acaba por exercer uma dupla fun\u00e7\u00e3o, condicionando os debates travados entre o governo brasileiro e boliviano e gerando informa\u00e7\u00f5es sobre espa\u00e7os at\u00e9 ent\u00e3o pouco conhecidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante disso, entendera na\u00e7\u00e3o como um projeto, uma constru\u00e7\u00e3o pensada por esferas do governo e da sociedade civil nos permite compreender como esse processo \u00e9 feito atrav\u00e9s de escolhas e disputas, algo que pouco aparece na imagem do Brasil cordial e pac\u00edfico que corre no discurso cotidiano.Olhar para a hist\u00f3ria do nosso territ\u00f3rio e de suas fronteiras implica ainda reconhecer que o espa\u00e7o que habitamos n\u00e3o \u00e9 fruto de nenhuma naturalidade ou provid\u00eancia, mas da a\u00e7\u00e3o humana e conflituosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seu texto, Moema Vergara apresenta ainda uma rela\u00e7\u00e3o pouco pensada at\u00e9 mesmo no \u00e2mbito acad\u00eamico: a rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia, na\u00e7\u00e3o e territ\u00f3rio. Colocada em uma posi\u00e7\u00e3o de neutralidade, a ci\u00eancia n\u00e3o costuma ser associada diretamente a quest\u00f5es pol\u00edticas, aparecendo mais como uma ocupa\u00e7\u00e3o exclusiva de certos setores sociais. Por\u00e9m, quase sempre assume uma atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e em nossa hist\u00f3ria seu papel ultrapassa os laborat\u00f3rios, livros e universidades para adquirir uma import\u00e2ncia central nos esfor\u00e7os de consolida\u00e7\u00e3o daquilo que hoje chamamos e identificamos como Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Constantemente apontada como afastada do cotidiano das pessoas, a ci\u00eancia est\u00e1 mais presente em nossas vidas do que imaginamos.Poder pensar a na\u00e7\u00e3o a partir de um territ\u00f3rio geograficamente delimitado \u00e9 apenas uma de suas tantas contribui\u00e7\u00f5es. Logo, a divulga\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia passa tamb\u00e9m por reabilitar sua presen\u00e7a nos v\u00e1rios momentos em que atua como elemento chave da hist\u00f3ria do pa\u00eds. Reconhecer suas contribui\u00e7\u00f5es no passado \u00e9, sobretudo, reconhecer o papel essencial que ainda exerce em nossa sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Andressa \u00e9 graduanda em Hist\u00f3ria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/bgoeldi\/v5n2\/a09v5n2.pdf\">VERGARA, de Rezende Moema. Ci\u00eancia,&nbsp; fronteiras&nbsp; e&nbsp; na\u00e7\u00e3o:&nbsp; comiss\u00f5es&nbsp; brasileiras&nbsp; na&nbsp; demarca\u00e7\u00e3o dos&nbsp; limites&nbsp; territoriais&nbsp; entre&nbsp; Brasil&nbsp; e&nbsp; Bol\u00edvia,&nbsp; 1895-1901. <em>Bol. Mus. Para. Em\u00edlio Goeldi. Cienc. Hum., <\/em>Bel\u00e9m, v. 5, n. 2, p. 345-361, maio-ago. 2010<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Capil\u00e9 Para aqueles que nasceram na segunda metade do s\u00e9culo XX em diante, o Brasil \u00e9 um fato. Os estados e regi\u00f5es que o comp\u00f5em, a ideia de uma na\u00e7\u00e3o politicamente unificada e a exist\u00eancia de uma cultura e sentimento nacional s\u00e3o aspectos dados como naturais e presentes desde tempos imemoriais. 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