{"id":211,"date":"2020-12-10T16:30:37","date_gmt":"2020-12-10T19:30:37","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/?p=211"},"modified":"2023-02-15T11:46:02","modified_gmt":"2023-02-15T14:46:02","slug":"o-rio-de-janeiro-pelo-brasil-a-grande-reforma-urbana-nos-jornais-do-pais-1903-1906","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/o-rio-de-janeiro-pelo-brasil-a-grande-reforma-urbana-nos-jornais-do-pais-1903-1906\/","title":{"rendered":"O Rio de Janeiro pelo Brasil: a grande reforma urbana nos jornais do Pa\u00eds (1903-1906)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><strong>Suelem Demuner Teixeira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, a cidade Rio de Janeiro, considerada na \u00e9poca uma cidade insalubre, passou por uma remodela\u00e7\u00e3o a fim de renovar sua imagem como capital de um pa\u00eds, que correspondendo aos anseios de uma elite republicana, deveria ser exibido como uma na\u00e7\u00e3o modernizada. Tal remodela\u00e7\u00e3o estava inclu\u00edda nos planos de uma Grande Reforma Urbana (1903-1906), composta por duas reformas, uma de responsabilidade do governo federal e outra da administra\u00e7\u00e3o municipal. O governo federal, presidido por Rodrigues Alves, se encarregara das obras do Porto do Rio de Janeiro e \u00e0quelas relacionadas \u00e0 circula\u00e7\u00e3o de mercadorias, como a Avenida Central, a avenida do cais (atual Rodrigues Alves) e o canal do Mangue. \u00c0 administra\u00e7\u00e3o municipal, cujo maior representante fora o ent\u00e3o prefeito Pereira Passos, coube a abertura e o alargamento de outras ruas e medidas direcionadas ao saneamento e embelezamento da cidade. Tais interven\u00e7\u00f5es podem ser vistas como um investimento simb\u00f3lico a fim de melhorar a imagem do pa\u00eds no exterior (atraindo imigrantes e investimentos) e legitimar o regime republicano em \u00e2mbito nacional, alcan\u00e7ando o imagin\u00e1rio de uma popula\u00e7\u00e3o que ainda estava afetivamente apegada \u00e0 Monarquia e \u00e0 figura central do Imperador D. Pedro II.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"408\" src=\"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/pereira-500x408-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-213\" srcset=\"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/pereira-500x408-1.jpg 500w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/pereira-500x408-1-300x245.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 1 \u2013 Pereira Passos (acervo Arquivo Nacional \u2013 Fundo Correio da Manh\u00e3)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cidade \u00e9, antes de seu aspecto natural ou f\u00edsico, um espa\u00e7o social. As interven\u00e7\u00f5es em seu espa\u00e7o funcionam tamb\u00e9m como representa\u00e7\u00f5es que lhe conferem novos sentidos. Tais mudan\u00e7as atuariam sobre o imagin\u00e1rio social, visando produzir uma sensa\u00e7\u00e3o de inser\u00e7\u00e3o em novos tempos. A manipula\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio social \u00e9 uma estrat\u00e9gia importante para a legitima\u00e7\u00e3o de um regime pol\u00edtico, pois possui um grande peso em momentos de mudan\u00e7a pol\u00edtica ou social, atingindo a cabe\u00e7a e o cora\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o (CARVALHO, 1990, p. 10). A moderniza\u00e7\u00e3o seria orientada por novos usos da capital, apagando da mem\u00f3ria as representa\u00e7\u00f5es que tivessem afinidades com o per\u00edodo imperial. Esses projetos trariam uma nova significa\u00e7\u00e3o para a cidade, fazendo surgir novas imagens em detrimento de imagens antigas, que deveriam ser extirpadas. A produ\u00e7\u00e3o desse novo imagin\u00e1rio atingiria primeiramente a popula\u00e7\u00e3o carioca, para em seguida \u201cconquistar\u201d a popula\u00e7\u00e3o brasileira. Dessa forma, o regime republicano iria se perpetuando na sociedade atrav\u00e9s desse novo espa\u00e7o urbano, modernizado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para que a nova imagem da capital fosse legitimada e alcan\u00e7asse uma repercuss\u00e3o de \u00e2mbito nacional e internacional, foram de extrema import\u00e2ncia os discursos materializados nos jornais, nas revistas, nas fotografias. O autor do discurso \u00e9 tamb\u00e9m o detentor de um poder simb\u00f3lico capaz de convencer o receptor a apoiar as suas causas. O jornalista pode ser inserido nessa abordagem \u00e0 medida em que se torna um<br>especialista da produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, legitimando por meio dessa produ\u00e7\u00e3o, a sua domina\u00e7\u00e3o, representando seus interesses ou daqueles a quem est\u00e1 a servi\u00e7o<sup>1<\/sup>. A imprensa tem um papel difusor das pr\u00e1ticas e das ideias, e na \u00e9poca da Grande Reforma Urbana, o fato dos jornais e revistas serem o \u00fanico meio de comunica\u00e7\u00e3o em massa fortalecia sua autoridade e ampliava o seu poder de persuas\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como instrumento ativo da constru\u00e7\u00e3o da cultura de uma \u00e9poca, a imprensa pode nos dizer muito sobre o contexto hist\u00f3rico envolvendo uma sociedade no seu tempo. Agente do processo de renova\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano desde os tempos do Imp\u00e9rio, a imprensa associou \u00e0s inova\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas implementadas no final do s\u00e9culo XIX, um car\u00e1ter empresarial voltado para interesses capitalistas de amplia\u00e7\u00e3o de vendas, consagrando-se como grande empresa no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, \u00e9poca em que se discutia a renova\u00e7\u00e3o da capital. Parte consider\u00e1vel da imprensa protagonizou uma intensa campanha a favor dessa renova\u00e7\u00e3o. Envolvidos no processo de consolida\u00e7\u00e3o do regime republicano, os jornais e revistas procuraram construir uma representa\u00e7\u00e3o ideal da sociedade. Para terem credibilidade, precisavam tamb\u00e9m atrair leitores e convencer o p\u00fablico a apoiar suas ideias. Sendo assim, enfatizavam as \u201cmaravilhas da moderniza\u00e7\u00e3o\u201d em detrimento das \u201cmazelas dos tempos idos\u201d na capital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os avan\u00e7os na comunica\u00e7\u00e3o, ocorridos durante a segunda metade do s\u00e9culo XIX, dinamizaram setores como a imprensa, as correspond\u00eancias e o com\u00e9rcio mundial, especialmente por conta da tecnologia do tel\u00e9grafo. A troca de mensagens entre lugares distantes, que normalmente levava semanas ou meses, passou a ser realizada em horas. Apesar das burocracias e da lentid\u00e3o em expandir o seu sistema telegr\u00e1fico, o Brasil aos poucos foi ampliando a comunica\u00e7\u00e3o entre suas prov\u00edncias<sup>2<\/sup>.Na \u00e9poca da Grande Reforma Urbana, praticamente todo o territ\u00f3rio brasileiro j\u00e1 havia sido contemplado pelos tel\u00e9grafos, o que facilitou a repercuss\u00e3o desse evento no territ\u00f3rio nacional. O desenvolvimento dos correios e dos meios de transporte tamb\u00e9m estreitou as comunica\u00e7\u00f5es entre as regi\u00f5es e expandiu o acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es. A malha ferrovi\u00e1ria foi atingindo lugares long\u00ednquos, possibilitando que os peri\u00f3dicos chegassem aos leitores e reduzindo o tempo de comunica\u00e7\u00e3o entre as regi\u00f5es brasileiras (BARBOSA,2010. p. 117). Jornais da capital partiam rumo a outras cidades atrav\u00e9s das ag\u00eancias dos Correios, que por sua vez, utilizavam os trens e bondes para distribu\u00ed-los pelas regi\u00f5es mais distantes.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"408\" src=\"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/mapa-brasil-500x408-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-214\" srcset=\"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/mapa-brasil-500x408-1.jpg 500w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/mapa-brasil-500x408-1-300x245.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 2 \u2013 Carta do Imp\u00e9rio do Brasil com a designa\u00e7\u00e3o das ferrovias, col\u00f4nias, engenhos centrais, linhas telegr\u00e1ficas e navega\u00e7\u00e3o a vapor, 1883. (Acervo Arquivo Nacional \u2013 Fundo Minist\u00e9rio da Instru\u00e7\u00e3o P\u00fablica, Correios e Tel\u00e9grafos)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"408\" src=\"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/mapa-brasil2-500x408-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-215\" srcset=\"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/mapa-brasil2-500x408-1.jpg 500w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/mapa-brasil2-500x408-1-300x245.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 3 \u2013 Mapa Telegr\u00e1fico do Brasil em 1900 (Acervo Arquivo Nacional \u2013 Fundo Francisco Bhering)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pr\u00f3prio desenvolvimento da imprensa tamb\u00e9m fazia parte do contexto de moderniza\u00e7\u00e3o. Para o jornal O Vulgarizador, dedicado \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, a imprensa era considerada um artefato de modernidade, junto com o vapor e a eletricidade. \u201cO jornal era \u2018moderno\u2019 n\u00e3o apenas por divulgar novas ideias, ou seja, por ser um ve\u00edculo de civiliza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m por ser produto das inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas de sua \u00e9poca\u201d (VERGARA, 2011. p. 25). As inova\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, como a moderniza\u00e7\u00e3o dos maquin\u00e1rios e o uso de ilustra\u00e7\u00f5es, transformaram os m\u00e9todos de impress\u00e3o. Houve um crescimento das tiragens e mais rapidez na distribui\u00e7\u00e3o, encurtando o tempo e a dist\u00e2ncia nas comunica\u00e7\u00f5es. Somaram-se a esses fatores, o surgimento de uma nova categoria de jornalistas profissionais e novas se\u00e7\u00f5es de entretenimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As revistas ilustradas desempenhavam um papel estrat\u00e9gico e de grande impacto social, representando a celebra\u00e7\u00e3o da nova cidade. A utiliza\u00e7\u00e3o da fotografia em suas p\u00e1ginas foi importante para a divulga\u00e7\u00e3o da moderniza\u00e7\u00e3o da capital, promovendo a identifica\u00e7\u00e3o do leitor com seus novos aspectos. Suas imagens associavam as transforma\u00e7\u00f5es a um certo \u201chero\u00edsmo\u201d da burguesia republicana (OLIVEIRA, 2010. p.133). Al\u00e9m disso, tais imagens eram vistas como uma forma agrad\u00e1vel e de f\u00e1cil leitura sobre as reformas, proporcionando uma percep\u00e7\u00e3o imediata das interven\u00e7\u00f5es urbanas.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"408\" src=\"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Rio-500x408-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-216\" srcset=\"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Rio-500x408-1.jpg 500w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Rio-500x408-1-300x245.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 4 \u2013 Entrada da Barra, bairro de Botafogo \u2013 Vista tomada do Pico do Corcovado (Revista Kosmos, dezembro de 1906)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jornais e revistas anunciavam as mudan\u00e7as, e as not\u00edcias iam atingindo um alcance cada vez maior, ultrapassando as fronteiras do Rio de Janeiro. A Grande Reforma Urbana passava a ter cada vez mais destaque nas p\u00e1ginas de jornais de v\u00e1rios estados do Brasil. O Rio de Janeiro aparecia nos jornais de v\u00e1rias formas: atrav\u00e9s de telegramas, por correspondentes que viviam na capital, ou tamb\u00e9m por mat\u00e9rias escritas pelos pr\u00f3prios jornalistas locais, que mesmo vivendo longe da capital, se mantinham informados pela facilidade de comunica\u00e7\u00e3o. E o que essa repercuss\u00e3o poderia significar para os jornalistas e os leitores? Os jornalistas podiam produzir discursos que representassem os anseios de seus patr\u00f5es ou at\u00e9 mesmo de uma elite pol\u00edtica local, mas eles tamb\u00e9m falavam por si. Quando comparavam suas cidades com o Rio de Janeiro e seus prefeitos com Pereira Passos, que foi al\u00e7ado pela imprensa \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de her\u00f3i nacional, queriam expor tamb\u00e9m suas reivindica\u00e7\u00f5es, insatisfa\u00e7\u00f5es, desejo de mudan\u00e7as. Os discursos n\u00e3o s\u00e3o neutros, ao contr\u00e1rio, s\u00e3o dotados de intencionalidades, e sua produ\u00e7\u00e3o se relaciona com as condi\u00e7\u00f5es que cercam o seu autor, representando os seus sentimentos. Os jornalistas escrevem para o p\u00fablico, mas tamb\u00e9m escrevem para si mesmos. E suas palavras n\u00e3o s\u00e3o vazias, elas pretendem chegar a algum lugar; chegar nas autoridades para que fa\u00e7am algo, chegar nos leitores para que concordem com suas ideias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o se pode pensar no discurso sem pensar na sua rela\u00e7\u00e3o com o leitor. Afinal, um texto s\u00f3 existe se houver um leitor para lhe dar um significado (CHARTIER, 1994,p. 11). Os discursos sobre o projeto republicano de revitaliza\u00e7\u00e3o da capital surgiram num momento em que o p\u00fablico leitor demandava por mais informa\u00e7\u00f5es num tempo cada vez mais curto. E ainda que houvesse uma taxa de alfabetiza\u00e7\u00e3o consideravelmente baixa na \u00e9poca, com cerca apenas de 25%, as not\u00edcias eram absorvidas, pois a rela\u00e7\u00e3o do leitor com o discurso vai al\u00e9m da palavra escrita, estando presente em outras formas simb\u00f3licas, como as imagens ou a oralidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Rio de Janeiro, privilegiado por sua capitalidade<sup>3 <\/sup>e por suas paisagens naturais, era descrito como a met\u00e1fora do pa\u00eds. As cidades dotadas de capitalidade, quando reformuladas, assumem uma dimens\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o de um projeto nacional (NEVES, 1992. p. 5). Esse caso pode ser aplicado ao Rio de Janeiro, pois as mudan\u00e7as em seu espa\u00e7o permeariam o imagin\u00e1rio da popula\u00e7\u00e3o brasileira, como uma antecipa\u00e7\u00e3o<br>de um futuro de progresso e civiliza\u00e7\u00e3o que alcan\u00e7aria uma dimens\u00e3o nacional. O valor simb\u00f3lico que o Rio de Janeiro possu\u00eda enquanto vitrine da na\u00e7\u00e3o foi fundamental para os investimentos na cidade, mesmo ap\u00f3s o seu esvaziamento pol\u00edtico, provocado pela ascens\u00e3o do federalismo. A capitalidade, desenvolvida ao longo de sua hist\u00f3ria, a tornou uma refer\u00eancia para as demais regi\u00f5es do pa\u00eds, justificando os investimentos simb\u00f3licos sobre ela. As publica\u00e7\u00f5es nos jornais da capital e de outros estados eram parte desse investimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar do impacto das mudan\u00e7as, quem deu a dimens\u00e3o das reformas foram os discursos sobre ela. A repercuss\u00e3o sobre os investimentos na cidade foi facilitada pelo papel difusor e formador de opini\u00e3o de uma imprensa que se enquadrava em uma pol\u00edtica de poder, dominada por uma minoria. A capital passou por mudan\u00e7as, mas elas foram setorizadas e n\u00e3o englobaram todo o seu espa\u00e7o. A elegante Avenida Central (atual Rio Branco), principal s\u00edmbolo da Grande Reforma Urbana, n\u00e3o representava a cidade de contradi\u00e7\u00f5es que os jornais, as revistas ilustradas, os \u00e1lbuns fotogr\u00e1ficos e os cart\u00f5es postais n\u00e3o mostravam. Tais investimentos simb\u00f3licos n\u00e3o desciam \u00e0s particularidades e adotaram como recurso uma propaganda maci\u00e7a de forte carga emocional que enfatizava um discurso dicot\u00f4mico que dividia a cidade, marcada pelo antes e o depois das reformas.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"673\" src=\"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/teatro-1024x673-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-217\" srcset=\"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/teatro-1024x673-2.jpg 1024w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/teatro-1024x673-2-300x197.jpg 300w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/teatro-1024x673-2-768x505.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 5\u2013 Extremidade Sul da Avenida Central, 1910 (FERREZ, Marc. O \u00e1lbum da Avenida Central. Um documento fotogr\u00e1fico da constru\u00e7\u00e3o da Avenida Rio Branco)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Rio de Janeiro que grande parte da imprensa procurava exaltar, era o que havia sido contemplado pelos chamados melhoramentos: o Rio novo, bonito, limpo e moderno em oposi\u00e7\u00e3o ao Rio antigo, feio, sujo e atrasado. Justificavam uma moderniza\u00e7\u00e3o que expurgaria o aspecto colonial que, segundo seus discursos, vigorava na capital at\u00e9 ent\u00e3o, como se a mesma n\u00e3o tivesse passado por quase um s\u00e9culo de mudan\u00e7as durante o per\u00edodo imperial. A capital que era mostrada no Brasil e no exterior era a da Avenida Central e da Avenida Beira-Mar, que partia em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Zona Sul, regi\u00e3o que cada vez mais crescia no imagin\u00e1rio da cidade como l\u00f3cus de vida apraz\u00edvel. Eram \u00e1reas privilegiadas que n\u00e3o correspondiam \u00e0 realidade de toda a cidade. Mas aquilo que n\u00e3o se enquadrava na promo\u00e7\u00e3o da capital estava fadado ao esquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Rio de Janeiro remodelado n\u00e3o correspondia \u00e0 cidade em sua totalidade, embora a representasse nas p\u00e1ginas dos jornais e das revistas. E esse mesmo Rio, que representava o pa\u00eds, tamb\u00e9m n\u00e3o correspondia \u00e0 realidade de seu vasto territ\u00f3rio. Apesar de terem sido um recurso para a unifica\u00e7\u00e3o do regime republicano no cora\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, as reformas foram absorvidas de acordo com as realidades de cada estado e de cada leitor. N\u00e3o h\u00e1 como generalizar a forma como as not\u00edcias eram recebidas, pois cada leitor, e isso inclui aqueles que nem sequer pegaram num jornal, as recebiam e assimilavam de acordo com as suas particularidades. E assim como a diferen\u00e7a de representatividade e de recursos entre as diversas regi\u00f5es n\u00e3o possibilitava que elas se tornassem uma c\u00f3pia da capital, suas peculiaridades lhes conferiam uma cultura que era s\u00f3 sua. Portanto, elas n\u00e3o apenas n\u00e3o podiam como tamb\u00e9m n\u00e3o precisavam ser uma c\u00f3pia, por maior que fosse o seu encantamento com as not\u00edcias que traziam as mudan\u00e7as ocorridas no Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Rio de Janeiro como cart\u00e3o postal foi uma produ\u00e7\u00e3o da Primeira Rep\u00fablica (1889-1930). As interven\u00e7\u00f5es em seu espa\u00e7o urbano e sua divulga\u00e7\u00e3o a n\u00edvel nacional e internacional n\u00e3o teriam acontecido se a cidade n\u00e3o possu\u00edsse uma forte representa\u00e7\u00e3o cultural, constru\u00edda ao longo de toda a sua hist\u00f3ria. Essa constru\u00e7\u00e3o foi implantada no imagin\u00e1rio nacional de maneira t\u00e3o profunda, que mesmo ap\u00f3s a transfer\u00eancia da capital federal para Bras\u00edlia em 1960, o Rio n\u00e3o perdeu sua representatividade como a vitrine do pa\u00eds, ainda que tal representa\u00e7\u00e3o venha se mostrando cada vez mais pulverizada. Os discursos da imprensa no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, apresentavam o Rio de Janeiro como o \u00edcone da renova\u00e7\u00e3o nacional, representante de um novo Brasil. No entanto, al\u00e9m de tal renova\u00e7\u00e3o ter sido uma realidade mais pr\u00f3xima do discurso do que da pr\u00e1tica, \u00e9 importante considerar a imensa diversidade regional do pa\u00eds e que nem todas as cidades brasileiras eram como a capital federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda que certas capitais estudais estivessem passando por alguns processos de moderniza\u00e7\u00e3o na \u00e9poca, tais processos n\u00e3o eram homog\u00eaneos, e o pa\u00eds permanecia em grande parte essencialmente agr\u00e1rio e latifundi\u00e1rio. Por outro lado, isso n\u00e3o diminui a import\u00e2ncia dessas regi\u00f5es na forma\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do Brasil, apesar do destaque ocupado pelo Rio de Janeiro, ent\u00e3o capital, sede do governo, local de grandes acontecimentos pol\u00edticos, e polo de atra\u00e7\u00e3o de migrantes e imigrantes. \u00c9 justamente a diversidade regional que re\u00fane tantas culturas, climas e paisagens diferentes, que fez e faz do Brasil o pa\u00eds que hoje conhecemos.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">*Suelem Demuner Teixeira \u00e9 formada em Hist\u00f3ria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro \u2013 UFRJ, mestra em Hist\u00f3ria Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro \u2013 UNIRIO , trabalha na equipe de processamento de documentos iconogr\u00e1ficos do Arquivo Nacional (como servidora), com especializa\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria do Brasil pela Universidade C\u00e2ndido Mendes \u2013 UCAM e curso de extens\u00e3o em Hist\u00f3ria da Medicina Tropical pela FIOCRUZ \/ Universidade Nova de Lisboa<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(1)Ver Pierre Bourdieu. O Poder Simb\u00f3lico, 1989<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(2)As prov\u00edncias se tornaram estados ap\u00f3s a implanta\u00e7\u00e3o do federalismo, pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1891, sendo<br>este epis\u00f3dio relacionado ao advento da Rep\u00fablica, ocorrido em 15 de novembro de em 1889.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(3)O conceito de capitalidade foi desenvolvido pelo historiador e te\u00f3rico italiano de arte, Giulio Carlo Argan Uma das principais caracter\u00edsticas da capitalidade \u00e9 o cosmopolitismo. Uma cidade dotada de capitalidade n\u00e3o precisa necessariamente ser a capital da na\u00e7\u00e3o, a exemplo de Nova Iorque e Sidney.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BIBLIOGRAFIA<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BARBOSA, Marialva Carlos. Hist\u00f3ria Cultural da Imprensa (1800-1900). Rio de Janeiro: Mauad X, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CARVALHO, Jos\u00e9 Murilo de. A forma\u00e7\u00e3o das almas. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1990.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CHARTIER, Roger. A hist\u00f3ria cultural entre pr\u00e1ticas e representa\u00e7\u00f5es. Tradu\u00e7\u00e3o de Maria Manuela Galhardo. Lisboa: Difus\u00e3o Editora, 1988.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CHARTIER, Roger. A ordem dos livros. Leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os s\u00e9culos XIV e XVIII. Tradu\u00e7\u00e3o de Mary del Priore, Bras\u00edlia: Editora Universidade de Bras\u00edlia, 1994.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">NEVES, Margarida de Souza. Brasil! Acertai vossos ponteiros! Museu de Astronomia e Ci\u00eancias Afins (Org). MAST\/CNPq. Rio de Janeiro,1992.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OLIVEIRA, Cl\u00e1udia de. A iconografia do moderno: a representa\u00e7\u00e3o da vida urbana. In OLIVEIRA, Cl\u00e1udia (org.). O moderno em revistas: representa\u00e7\u00f5es do Rio de Janeiro de 1890 a 1930. Rio de Janeiro: Garamond, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">VERGARA, Moema de Rezende. A divulga\u00e7\u00e3o da Bot\u00e2nica no s\u00e9culo XIX: o caso do jornal O Vulgarizador. In: KNAUSS, Paulo et al., organizadores. Revistas Ilustradas: modos de ler e ver no Segundo Reinado. Rio de Janeiro: MAUAD X: FAPERJ, 2011.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Suelem Demuner Teixeira No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, a cidade Rio de Janeiro, considerada na \u00e9poca uma cidade insalubre, passou por uma remodela\u00e7\u00e3o a fim de renovar sua imagem como capital de um pa\u00eds, que correspondendo aos anseios de uma elite republicana, deveria ser exibido como uma na\u00e7\u00e3o modernizada. Tal remodela\u00e7\u00e3o estava inclu\u00edda nos planos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":212,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-211","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/211","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=211"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/211\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":377,"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/211\/revisions\/377"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/212"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=211"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=211"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=211"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}