{"id":219,"date":"2020-08-24T18:22:18","date_gmt":"2020-08-24T21:22:18","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/?p=219"},"modified":"2023-02-15T11:45:08","modified_gmt":"2023-02-15T14:45:08","slug":"a-alma-encantadora-do-porto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/a-alma-encantadora-do-porto\/","title":{"rendered":"A alma encantadora do Porto"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><strong>Matheus Freire Silva Torres<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse texto tem como objetivo analisar e ponderar sobre a import\u00e2ncia dos espa\u00e7os p\u00fablicos para as organiza\u00e7\u00f5es culturais portu\u00e1rias do Rio de Janeiro no come\u00e7o do s\u00e9culo XX e de que forma se deu suas intera\u00e7\u00f5es com o espa\u00e7o circunscrito. Para realizar essa an\u00e1lise ser\u00e1 utilizado\u00a0 de base a tese de doutorado, \u201cO Porto Negro: trabalho, cultura e associativismo dos trabalhadores portu\u00e1rios no Rio de Janeiro na virada do XIX para o XX.\u201d de Erika Bastos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O porto do Rio de Janeiro e seus desdobramentos foi objeto de estudo de diversos historiadores ao longo da hist\u00f3ria. Isso se d\u00e1 devido ao fato de que essa pequena parte da cidade, relativamente falando, teve enorme impacto na Hist\u00f3ria social do trabalho e na Hist\u00f3ria cultural da cidade, sen\u00e3o do pa\u00eds. Por\u00e9m, o porto e suas ruas j\u00e1 era de interesse e fonte de inspira\u00e7\u00e3o para o escritor e jornalista Jo\u00e3o do Rio, muito antes dos historiadores e seus trabalhos anal\u00edticos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Devido \u00e0 sua percep\u00e7\u00e3o, Jo\u00e3o do Rio e suas obras s\u00e3o uma mina de ouro para vislumbrar o funcionamento do porto e as intera\u00e7\u00f5es sociais existentes na \u00e9poca. Uma das principais constata\u00e7\u00f5es do escritor, que hoje \u00e9 utilizado por alguns historiadores, tal qual Erika Bastos, \u00e9 que a rua \u00e9 um espa\u00e7o vivo, mut\u00e1vel sempre a merc\u00ea dos seus transeuntes e \u00e9 nela que os trabalhadores se encontram, mobilizam-se e vivem. A classe trabalhadora n\u00e3o \u00e9 um elemento isolado da sociedade, um fen\u00f4meno restrito ao local de trabalho, que cessa assim que se bate o ponto e se encerra o expediente. O Jo\u00e3o que carrega saco no cais \u00e9 o mesmo que joga conversa fora no bar, com seus companheiros de trabalho.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/capa4-670x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-221\" width=\"466\" height=\"712\" srcset=\"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/capa4-670x1024.jpg 670w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/capa4-196x300.jpg 196w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/capa4.jpg 701w\" sizes=\"auto, (max-width: 466px) 100vw, 466px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De certa maneira quando Jo\u00e3o do Rio afirma que a rua tem alma e que nenhuma rua \u00e9 id\u00eantica, n\u00e3o se trata somente de uma figura de linguagem ou a licen\u00e7a po\u00e9tica t\u00e3o necess\u00e1ria ao of\u00edcio dos poetas, mas descende do fato de que o que determina a \u201calma\u201d das ruas s\u00e3o as pessoas que nela habitam e caminham. Sendo assim, o porto do Rio devido a sua forma\u00e7\u00e3o \u00fanica ao longo dos s\u00e9culos, n\u00e3o poderia deixar de ter uma alma \u00fanica que encantou e ainda encanta, quem por ele se aventura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jo\u00e3o do Rio afirma que a rua \u00e9 agasalhadora da mis\u00e9ria. Realmente, a rua \u00e9 o local de encontro dos miser\u00e1veis mundo afora. Entretanto, ser agasalhadora da mis\u00e9ria n\u00e3o \u00e9 um fator desmerecedor de sua import\u00e2ncia para a cidade e sua hist\u00f3ria. Visto que numa sociedade desigual como era e \u00e9 a sociedade carioca, onde uma parte significativa da popula\u00e7\u00e3o vive na mis\u00e9ria, agasalhar a mis\u00e9ria \u00e9 agasalhar o povo, \u00e9 uni-lo, \u00e9 criar uma identidade, \u00e9 entrela\u00e7ar a hist\u00f3ria da rua com a hist\u00f3ria cultural da cidade, que por sua vez \u00e9 a hist\u00f3ria do povo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez tenha sido a sua heterogeneidade, seus personagens marcantes e hist\u00f3rias cativantes que tenham feito Jo\u00e3o do Rio se apaixonar pela Rua. Uma coisa \u00e9 certa, estudar o porto e seus habitantes \u00e9 um passo importante para entender a forma\u00e7\u00e3o da nossa sociedade atual. Para tal, como enxerga Erika Bastos, \u00e9 vital realizar um recorte racial e n\u00e3o se esquecer que as origens da resist\u00eancia oper\u00e1ria se encontram na resist\u00eancia dos escravizados. E \u00e9 seguindo esses preceitos que pretendo desenvolver esse artigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Cidadania e seus limites&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o no dia 13 de maio de 1888, n\u00e3o foi e nem pretendia ser o suficiente para incluir os negros como cidad\u00e3os plenos na nossa sociedade. Essa exclus\u00e3o descende da mentalidade racista e escravocrata das elites brasileiras em conflito com os processos de forma\u00e7\u00e3o da sociedade republicana brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Luc\u00edola Delgado, em \u201cCidadania, democracia e direitos sociais: impasses e desafios em um s\u00e9culo de hist\u00f3ria no Brasil\u201d, analisa como o modelo te\u00f3rico sobre cidadania \u00e9 bem diferente da pr\u00e1tica. Pois, a partir do momento que a aboli\u00e7\u00e3o entrou em vigor, na teoria, os ex-escravos deveriam gozar de total acesso aos seus direitos. Entretanto, isso n\u00e3o ocorreu, mas n\u00e3o somente com os rec\u00e9m libertos, o acesso aos direitos e sua cidadania plena \u00e9 algo determinado por dois fatores: ra\u00e7a e classe. Sendo dessa maneira acess\u00edvel somente pela pequena parcela rica e branca do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A constru\u00e7\u00e3o da cidadania \u00e9 um processo hist\u00f3rico marcado por lutas sociais e pol\u00edticas. Devemos portanto, refletir os motivos que levaram a historiografia a ignorar por tanto tempo as lutas travadas, tanto pelo os escravizados, quanto pela popula\u00e7\u00e3o portu\u00e1ria, sendo essas lutas, corriqueiramente tachadas como revoltas fomentadas pela barriga, retirando das pessoas uma consci\u00eancia pol\u00edtica e identit\u00e1ria existente e atuante atrav\u00e9s dos mais variados mecanismos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os limites da cidadania no Brasil nunca foram determinados pela Constitui\u00e7\u00e3o, mas sim pela ra\u00e7a e condi\u00e7\u00e3o social do indiv\u00edduo. Portanto, seria um erro desconsiderar a heran\u00e7a escravocrata ao se pensar a hist\u00f3ria trabalhista e maior erro seria n\u00e3o se considerar as resist\u00eancias e revoltas do povo escravizado como parte importante das origens dos movimentos oper\u00e1rios, visto que muitos dos descendentes e ex-escravizados se tornaram oper\u00e1rios sindicalizados e atuantes nas greves do come\u00e7o do s\u00e9culo xx.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O porto e suas rotinas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Bastos o porto e suas ruas eram os locais de encontro dos trabalhadores e por consequ\u00eancia de forma\u00e7\u00e3o de suas identidades. Bastos em sua obra realiza um enfoque maior nas rela\u00e7\u00f5es dos trabalhadores entre si e as suas organiza\u00e7\u00f5es, deixando desta maneira evidente o fato de que os trabalhadores se organizavam nos locais de socializa\u00e7\u00e3o desta classe, e que eram esses trabalhadores que se envolviam nas greves, nas revoltas, como a Revolta da Vacina, na qual contou com forte apoio dos sindicatos, assim como nas folias e festas que tomavam a cidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho no porto tinha um car\u00e1ter irregular e espor\u00e1dico com hor\u00e1rios incertos ao longo do dia. Essa natureza incerta de trabalho, aliado com a crise que existia, for\u00e7ava os trabalhadores do porto a permanecerem longas horas na espera de um trabalho e, em muitos casos, n\u00e3o retornavam para casa com receio de perder a chegada de um novo navio. Muitos tamb\u00e9m n\u00e3o tinham meios de pagar por hot\u00e9is para pernoitar, encontrando na rua o seu alento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\">Muitas vezes ter ou n\u00e3o onde dormir dependia do sujeito ter sido escolhido pelo contratador. Se tinha trabalho, poderia pagar uma hospedaria no fim do dia, caso contr\u00e1rio enfrentava-se a noite num banco de pra\u00e7a ou em alguma embarca\u00e7\u00e3o do cais. Essa \u00faltima op\u00e7\u00e3o podia at\u00e9 ser mais vantajosa, pois assim o oper\u00e1rio j\u00e1 acordaria no local de trabalho e bem cedo se lan\u00e7aria de novo a uma nova batalha na parede. (1)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa rotina chamou aten\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o do Rio, que escreveu um conto sobre os trabalhadores da regi\u00e3o, no qual relatou a rotina \u00e1rdua e trabalhosa dos estivadores e suas intera\u00e7\u00f5es sociais pelas as ruas do porto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\">\u00c0s 5 da manh\u00e3 ouvia-se um grito de m\u00e1quina rasgando o ar. J\u00e1 o cais, na claridade p\u00e1lida da madrugada, regurgitava num vai-e-vem de carregadores, catraieiros, homens de bote e vagabundos maldormidos \u00e0 beira dos quiosques. Abriam-se devagar os botequins ainda com os bicos de g\u00e1s acesos; no interior os caixeiros, pregui\u00e7osos, erguiam os bra\u00e7os com bocejos largos. Das ruas que vazavam na cal\u00e7ada rebentada do cais, aflu\u00eda gente, sem cessar, gente que surgia do nevoeiro, com as m\u00e3os nos bolsos, tremendo, gente que se metia pelas bodegas e parava \u00e0 beira do quiosque numa grande az\u00e1fama. Para o cais da alf\u00e2ndega ao lado, um grupo de ociosos olhava atrav\u00e9s das frinchas de um tapume, rindo a perder; um carregador, encostado aos umbrais de uma porta, lia de \u00f3culos, o jornal, e todos gritavam, falavam, riam, agitavam-se&nbsp; na frialdade daquele acordar, enquanto dos botes policr\u00f4micos homens de camisa de meia ofereciam, aos berros, um passeiozinho pela ba\u00eda. Na curva do horizonte o sol de maio punha manchas sangrentas e a luz da manh\u00e3 abria como desabrocha um l\u00edrio no c\u00e9u p\u00e1lido<em>.<\/em>(2)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O relato acima de Jo\u00e3o do Rio, al\u00e9m de demonstrar o iniciar de um dia de trabalho dos estivadores, nos d\u00e1 pistas de como a elite enxergava esses trabalhadores, e como devido a pr\u00f3pria natureza do trabalho eles eram estigmatizados como vagabundos e ociosos. A rotina de um trabalhador do porto, aliada com a cor da maioria dos seus trabalhadores, eram motivos suficientes, na vis\u00e3o da elite, de serem perseguidos e oprimidos pelo instrumento de repress\u00e3o das classes dominantes, a pol\u00edcia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Repress\u00e3o \u00e0 \u201cvadiagem\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os trabalhadores poderiam ser presos sem pretexto, simplesmente por estarem caminhando, dormindo na rua ou pra\u00e7as ou, como salientou Bastos, resultado de alguma intriga particular, visto que muitos dos policiais de baixa patente eram vizinhos dos trabalhadores do porto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\">Essa proximidade e conviv\u00eancia podiam gerar conflitos pessoais que eram resolvidos na demonstra\u00e7\u00e3o de poder do policial sobre as v\u00edtimas. Muitos indiv\u00edduos poderiam ser enquadrados simplesmente por estar andando nas ruas em hor\u00e1rios considerados impr\u00f3prios ou por alguma \u201cpicuinha\u201d do meganha. A suspei\u00e7\u00e3o estava cada vez mais generalizada e se o policial cismasse com algu\u00e9m, era pris\u00e3o na certa<em>.<\/em>(3)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Erika Bastos demonstra que a repress\u00e3o foi mais dura e intensa com os trabalhadores negros, fato comprovado com os dados da Casa de Deten\u00e7\u00e3o e dos boletins policiais, que mostram uma enorme quantidade de negros presos, sobre pretextos forjados e for\u00e7ados. A situa\u00e7\u00e3o chegou a tal ponto que foi denunciado a exist\u00eancia de formul\u00e1rios de pris\u00e3o prontos com somente os espa\u00e7os do nome, data e local em branco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\">Em outubro de 1899 foi aprovada uma lei, conhecida como Lei Alfredo Pinto, que versava sobre os procedimentos utilizados na pris\u00e3o, no processo e no julgamento das contraven\u00e7\u00f5es. O objetivo desta lei era dar mais agilidade ao julgamento e puni\u00e7\u00e3o desses crimes, revelando a f\u00faria republicana na ca\u00e7a aos contraventores. Para isso, os delegados de pol\u00edcia passaram a ter o poder de produzir, dentro das pr\u00f3prias delegacias, os processos por contraven\u00e7\u00e3o. Do auto do flagrante \u00e0 conclus\u00e3o, todos os passos do processo poderiam ser feitos dentro da esfera policial. O judici\u00e1rio apenas proferiria as senten\u00e7as ou poderia requisitar novas investiga\u00e7\u00f5es e depoimentos se julgasse necess\u00e1rio. Os processos iam prontos para as pretorias de modo que o Juiz quase sempre ficava alheio ao que ocorria na fase de instru\u00e7\u00e3o e raramente ouvia os acusados se defendendo.(4)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No cap\u00edtulo tr\u00eas de sua tese, Bastos utiliza de alguns casos da \u00e9poca para demonstrar como esses processos eram fraudulentos, lentos e parciais. Em alguns casos, como o de Ant\u00f4nio Mina, personagem recorrente em sua tese e nos casos policiais, o acusado conseguiu a absolvi\u00e7\u00e3o, hora por comprovar a falha do processo, hora por testemunho. Entretanto, como a pr\u00f3pria autora refor\u00e7a, o caso de Mina e de outros trabalhadores em sua tese n\u00e3o eram a regra mas sim a exce\u00e7\u00e3o. A maioria dos detentos n\u00e3o conseguia acionar advogados e muitos s\u00f3 conheciam o juiz na leitura da pena. O que ocorria era um processo de encarceramento em massa do povo negro, um projeto de for\u00e7ar as classes de baixo a se adequarem ao comportamento das classes superiores. Todos aqueles que fugiam da moral e dos bons costumes, deveriam ser presos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desta maneira n\u00e3o \u00e9 de surpreender que com toda essa repress\u00e3o e preconceito, os trabalhadores do porto fossem uma comunidade fechada, resistente a interfer\u00eancia externa e contr\u00e1ria \u00e0s a\u00e7\u00f5es policiais, resolvendo suas intrigas e desaven\u00e7as dentro da pr\u00f3pria comunidade. Essa desconfian\u00e7a com o sistema jur\u00eddico estava longe de ser infundada e se tratava em parte de uma heran\u00e7a cultural dos ex-escravizados, que se organizaram para resistir \u00e0 opress\u00e3o estatal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Express\u00f5es culturais do porto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;O universo do porto n\u00e3o se restringia ao local de trabalho. As esferas culturais, trabalhistas, religiosas e de lazer se misturam e se aproximam de tal maneira que se torna dif\u00edcil, sen\u00e3o il\u00f3gico, tentar separ\u00e1-las. Devido a proximidade, ao contato di\u00e1rio, semelhan\u00e7as culturais e problemas similares, os trabalhadores do porto se organizaram das mais diversas formas: sindicatos, associa\u00e7\u00f5es de ajuda m\u00fatua, organiza\u00e7\u00f5es, cord\u00f5es, blocos, ranchos e agremia\u00e7\u00f5es.&nbsp; Cada uma dessas organiza\u00e7\u00f5es teve seu pr\u00f3prio papel na forma\u00e7\u00e3o da identidade trabalhista e cultural do porto, tendo cada uma delas tamb\u00e9m diversos casos de persegui\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o. Irei focar nas organiza\u00e7\u00f5es ligadas ao carnaval e \u00e0s folias populares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O carnaval do centro do Rio de Janeiro, local com maior concentra\u00e7\u00e3o de agremia\u00e7\u00f5es e cord\u00f5es da cidade no come\u00e7o do s\u00e9culo XX, estava intimamente ligado aos trabalhadores da zona portu\u00e1ria. Erika Bastos exp\u00f5e essa liga\u00e7\u00e3o \u00edntima no cap\u00edtulo cinco de sua tese. Hist\u00f3rias de sambista como de Jo\u00e3o Machado Guedes, Antoninho, Tem-Dengo, Get\u00falio Marinho, Donga e Heitor dos Prazeres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jo\u00e3o Machado Guedes ou Jo\u00e3o da Baiana, apelido que recebeu por seus pais serem baianos e que o acompanhou a vida toda. Jo\u00e3o da Baiana foi criado no bairro da Sa\u00fade e assim como muito outros jovens negros da regi\u00e3o se tornou estivador do porto, no come\u00e7o da sua juventude. Jo\u00e3o, quando n\u00e3o estava no porto, podia ser encontrado nos diversos ranchos e terreiros da cidade, n\u00e3o se limitando a circular pela zona portu\u00e1ria. Se tornou pe\u00e7a fundamental na organiza\u00e7\u00e3o da folia e de express\u00f5es culturais, incentivando e prestigiando diversas rodas espalhadas pela cidade, coube a esse personagem hist\u00f3rico do samba, a imortalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como as \u00e1reas nobres da cidade ficavam reservadas aos \u201cfoli\u00f5es nobres\u201d, restava aos pobres as zonas portu\u00e1rias e os entornos da esta\u00e7\u00e3o Central do Brasil. Entre essas \u00e1reas, temos o Campo de Santana, local que presenciou a passagem de centenas de cord\u00f5es, blocos e ranchos, recheados de ritmo, tradi\u00e7\u00e3o e acima de tudo alma. N\u00e3o somente as gremia\u00e7\u00f5es movimentavam e uniam a popula\u00e7\u00e3o, criando as tradi\u00e7\u00f5es carnavalescas que vemos todos os anos, como movimentava a economia local. Como de costume, os comerciantes, ao enxergarem nesses eventos oportunidades de lucro, come\u00e7aram a apoiar mais abertamente e em alguns casos at\u00e9 a patrocinar os desfiles. Vale salientar que o apoio dos bares e armaz\u00e9ns, muito provavelmente, n\u00e3o tinham motivos exclusivamente econ\u00f4micos. Um dos poss\u00edveis motivos pode ter sido o carinho e a paix\u00e3o desenvolvidas pelo carnaval devido a proximidade e o contato di\u00e1rio com o samba e os seus sambistas. Pois, como comentado acima, os bares eram locais de encontro e organiza\u00e7\u00e3o muito antes dos primeiros blocos arrastarem multid\u00f5es pela cidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os cord\u00f5es e Ranchos eram enormes sucessos, sendo frequentados por milhares de pessoas todos os anos, entretanto, esse sucesso e a pr\u00f3pria exist\u00eancia dessas manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o agradava a todas as pessoas \u2013 ainda h\u00e1 quem desgoste do carnaval por motivos similares na atualidade- a elite enxergava as festas populares como arrua\u00e7a, desordem, festas de exalta\u00e7\u00e3o a promiscuidade e reduto de vagabundos e criminosos. Mais uma vez, a ignor\u00e2ncia e o preconceito iria fazer cair sobre a cultura popular a repress\u00e3o. Felizmente, o povo n\u00e3o deixou ser silenciado, incorporou os ataques, resistiu e superou a repress\u00e3o, transformando o carnaval na maior festa do mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m das persegui\u00e7\u00f5es individuais aos trabalhadores e participantes das associa\u00e7\u00f5es, havia a persegui\u00e7\u00e3o aos clubes em si. Uma das maneiras de dificultar o funcionamento deles, era n\u00e3o liberar as licen\u00e7as de desfile. Para isso ocorrer bastava que um delegado ou um testemunho escuso sobre os integrantes e espectadores dos clubes. Uma maneira que os sambistas e gremistas encontraram para a sobreviv\u00eancia de seus clubes foi transmitir o ideal de que eram trabalhadores honestos que tinham como \u00fanico intuito o divertimento e o lazer de sua comunidade. Em alguns casos isso funcionou, em outros a repress\u00e3o foi mais forte.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste texto busquei demonstrar a import\u00e2ncia das comunidades negras no estabelecimento das organiza\u00e7\u00f5es trabalhistas, culturais e pol\u00edticas no Rio de Janeiro no come\u00e7o do s\u00e9culo XX. Al\u00e9m de tentar esclarecer que os trabalhadores do porto, que em sua maioria eram negros, estavam longe de serem vagabundos, mas sim trabalhadores que, como todos, desejavam e lutavam por seus espa\u00e7os de lazer e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e vida. O porto do Rio, foi local de nascimento dos mais antigos cord\u00f5es, terreiros e blocos da cidade. Foi lar de lend\u00e1rios sambistas, trabalhadores e agitadores. \u00c9 insensato tentar excluir ou ocultar da hist\u00f3ria a luta e a import\u00e2ncia de cada um desses trabalhadores para a forma\u00e7\u00e3o cultural da nossa cidade. Se hoje o carnaval \u00e9 nosso maior expoente cultural, muito se deve \u00e0s baianas, aos sambistas como Jo\u00e3o Machado Guedes, Antoninho, Tem-Dengo, Get\u00falio Marinho, Donga e Heitor dos Prazeres, aos estivadores que mesmo sobre forte repress\u00e3o n\u00e3o abriram m\u00e3o de sua cultura, paix\u00e3o e identidade. Acima de tudo n\u00e3o abriram m\u00e3o de suas almas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Achas tu que haverias carnaval se n\u00e3o houvesse os cord\u00f5es? Achas tu que bastariam os pr\u00e9stitos idiotas de meia d\u00fazia de senhores que se julgam engra\u00e7ad\u00edssimos\u2026\u2026 Mas o carnaval teria desaparecido, seria hoje menos que a festa da Gl\u00f3ria ou o \u201cbumba-meu-boi\u201d se fosse o entusiasmo dos grupos da Gamboa, do saco, da Sa\u00fade, de S. Diogo, da Cidade Nova, esse entusiasmo ardente, que meses antes dos tr\u00eas dias vem queimando como pequenas fogueiras crepitantes para acabar no formid\u00e1vel e total inc\u00eandio que envolve e estorce a cidade inteira. H\u00e1 em todas as sociedades, em todos os meios, em todos os prazeres, um n\u00facleo dos mais persistentes, que atrav\u00e9s do tempo guarda&nbsp; a chama pura do entusiasmo. Os outros s\u00e3o mariposas. aumentam as sombras, fazem os efeitos<em>.<\/em>(5)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">*Matheus Freire Silva Torres graduando em Hist\u00f3ria na Universidade Federal Fluminense e bolsista PIBIC do Museu de Astronomia e Ci\u00eancias Afins<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(1) Bastos, Erika. Cap\u00edtulo 3, P\u00e1gina 113. In: \u201cO Porto Negro: trabalho, cultura e&nbsp; associativismo dos trabalhadores portu\u00e1rios no Rio de Janeiro na virada do XIX para o XX.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(2) Rio, Jo\u00e3o do. Os Trabalhadores de Estiva, p\u00e1gina 107. In: A alma encantadora das ruas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(3)Bastos, Erika. Cap\u00edtulo 3,P\u00e1gina 124. In: \u201cO Porto Negro: trabalho, cultura e&nbsp; associativismo dos trabalhadores portu\u00e1rios no Rio de Janeiro na virada do XIX para o XX.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(4)Bastos, Erika.&nbsp;Op. Cit., p. 122.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(5) Rio, Jo\u00e3o do. Cord\u00f5es, p\u00e1gina 91. In: A alma encantadora das ruas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Matheus Freire Silva Torres Esse texto tem como objetivo analisar e ponderar sobre a import\u00e2ncia dos espa\u00e7os p\u00fablicos para as organiza\u00e7\u00f5es culturais portu\u00e1rias do Rio de Janeiro no come\u00e7o do s\u00e9culo XX e de que forma se deu suas intera\u00e7\u00f5es com o espa\u00e7o circunscrito. 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