{"id":244,"date":"2020-07-20T16:52:54","date_gmt":"2020-07-20T19:52:54","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/?p=244"},"modified":"2023-02-15T13:08:51","modified_gmt":"2023-02-15T16:08:51","slug":"reflexoes-sobre-vivencias-e-reapropriacao-social-da-natureza-semiarida","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/reflexoes-sobre-vivencias-e-reapropriacao-social-da-natureza-semiarida\/","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es sobre viv\u00eancias e reapropria\u00e7\u00e3o social da natureza semi\u00e1rida"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><strong>Ingryd Hayara<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por muitas vezes, o Semi\u00e1rido Brasileiro foi representado como um espa\u00e7o geogr\u00e1fico limitado pela exist\u00eancia de uma hostilidade ambiental, caracterizada por temperaturas elevadas e natureza in\u00f3spita. Diversos foram as pr\u00e1ticas, atores e discursos que, ao longo do tempo, contribu\u00edram para que essa identidade semi\u00e1rida se cristalizasse no imagin\u00e1rio popular, como as a\u00e7\u00f5es governamentais baseadas em uma l\u00f3gica tecnicista e descontextualizada, a literatura, a m\u00fasica, o cinema e os meios de comunica\u00e7\u00e3o. Esses fatores contribu\u00edram para consolidar uma vis\u00e3o estigmatizada que perdura at\u00e9 os dias atuais, na qual associa, constantemente, esse territ\u00f3rio a seca, pobreza, fome e \u00eaxodo rural.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/flor1-1024x682-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-246\" width=\"330\" height=\"220\" srcset=\"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/flor1-1024x682-1.jpg 1024w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/flor1-1024x682-1-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/flor1-1024x682-1-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 330px) 100vw, 330px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste texto, apresentarei alguns desses fatores. Contudo, pretendo dar uma maior aten\u00e7\u00e3o \u00e0s perspectivas e experi\u00eancias que, recentemente, tem repensado na valoriza\u00e7\u00e3o desses territ\u00f3rios por meio do paradigma da Conviv\u00eancia com o Semi\u00e1rido, que busca reconhecer as potencialidades do bioma Caatinga, al\u00e9m de valorizar as contribui\u00e7\u00f5es das comunidades e ancestralidades que ressignificam as rela\u00e7\u00f5es homem-natureza. Essas reflex\u00f5es foram realizadas a partir dos resultados da pesquisa \u201c(Re)exist\u00eancias: la\u00e7os de compadrio e luta pela terra\u201d, que buscou investigar as viv\u00eancias de atores e atrizes com o Semi\u00e1rido.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>A constru\u00e7\u00e3o de um imagin\u00e1rio cristalizado sobre o Semi\u00e1rido<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para falar sobre os estere\u00f3tipos dos territ\u00f3rios semi\u00e1ridos que circundam o imagin\u00e1rio popular, \u00e9 necess\u00e1rio voltarmos os olhos para pr\u00e1ticas e discursos que se mantiveram ao longo do tempo.<br>Os per\u00edodos de estiagem fazem parte da din\u00e2mica ambiental das zonas \u00e1ridas, semi\u00e1ridas e sub\u00famidas, de forma c\u00edclica e, portanto, previs\u00edvel. No Brasil, a estiagem de 1877-1879, foi a primeira a ter ampla repercuss\u00e3o, devido o per\u00edodo de vulnerabilidade em que as \u00e1reas semi\u00e1ridas passavam, em especial, pela decad\u00eancia do algod\u00e3o que ocasionou um grande movimento de \u00eaxodo rural no norte do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse acontecimento mobilizou o governo brasileiro a elaborar estrat\u00e9gias de domina\u00e7\u00e3o da semiaridez com a ajuda das elites regionais que tiveram grande influ\u00eancia nesse processo, uma vez que viam nos per\u00edodos de estiagem, uma forma de barganha para conseguir mais investimentos financeiros. Em decorr\u00eancia disso, foram criados os primeiros \u00f3rg\u00e3os que seriam respons\u00e1veis por pensar a seca como algo que precisava ser combatido. Todavia, a implementa\u00e7\u00e3o dessas institui\u00e7\u00f5es trouxe uma pol\u00edtica que n\u00e3o dialogava com as pessoas que receberam essas obras assistencialistas. As a\u00e7\u00f5es desenvolvidas pelo Estado eram marcadas pela l\u00f3gica tecnicista, sendo empreendidas de forma emergencial, sem levar em considera\u00e7\u00e3o as singularidades desses territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/cacto-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-247\" width=\"291\" height=\"194\" srcset=\"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/cacto-1024x682.jpg 1024w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/cacto-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/cacto-768x512.jpg 768w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/cacto.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 291px) 100vw, 291px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, emerge uma ideia de se conhecer e dominar a natureza semi\u00e1rida, como se fosse um objeto passivo de ser controlado pelo homem. Nessa perspectiva, os territ\u00f3rios semi\u00e1ridos apresentariam locais com escassez de recursos naturais e, portanto, era motivo para que tivesse o desenvolvimento prejudicado, ignorando aspectos como as imensas desigualdades sociais, a exemplo do acesso \u00e0 renda, e centraliza\u00e7\u00e3o de latif\u00fandios. Para a pesquisadora Luzineide Carvalho, em meio a esse contexto, \u201ccaberia ao Estado-nacional a tarefa de \u2018civilizar\u2019 o territ\u00f3rio, corrigindo o determinismo natural cujas interven\u00e7\u00f5es dar-se-iam conta de inserir esse territ\u00f3rio dentro da ideia de na\u00e7\u00e3o forte, direcionando-o para o desenvolvimento nacional\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seus estudos, o historiador Albuquerque J\u00fanior tamb\u00e9m partilha que algumas pr\u00e1ticas e discursos contribu\u00edram para a forma\u00e7\u00e3o desse imagin\u00e1rio popular sobre um Nordeste que, na verdade, sempre era associado ao territ\u00f3rio Semi\u00e1rido O cen\u00e1rio liter\u00e1rio, por exemplo, foi marcado com o lan\u00e7amento de livros que traziam o Nordeste como pano de fundo. No livro Os Sert\u00f5es (1906), para al\u00e9m de relatar a Guerra de Canudos, Euclides da Cunha analisa aspectos da paisagem e do homem nordestino que, para ele, era definido pelo meio que vivia. Anos depois, surge o Congresso Regionalista de 1930, no qual se destacam autores como Raquel de Queiroz, Jos\u00e9 Lins do Rego e Jorge Amado, que pautavam a regi\u00e3o sempre por uma perspectiva semelhante, trazendo discuss\u00f5es em seus livros que acabaram sendo apropriadas pelo resto do pa\u00eds, alimentando a vis\u00e3o de uma regi\u00e3o castigada pela natureza hostil..<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cen\u00e1rio musical tamb\u00e9m colaborou para essa constru\u00e7\u00e3o. Na d\u00e9cada de 1940, o Brasil viu ascender um \u201crepresentante\u201d do Nordeste que surpreendia a todos pelo ritmo dan\u00e7ante. As can\u00e7\u00f5es de Luiz Gonzaga refor\u00e7aram a vis\u00e3o dessa regi\u00e3o como um espa\u00e7o a parte do pa\u00eds, que era oposto ao Sul. O \u201csert\u00e3o\u201d de Gonzaga era feito de saudades e mem\u00f3rias de um lugar que, aparentemente, vivia preso ao per\u00edodo c\u00edclico da natureza. Nas suas cantigas, os per\u00edodos de secas eram marcados pela tristeza e a dor da partida, enquanto os invernos representavam a felicidade e renova\u00e7\u00e3o da f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acrescentando esse cen\u00e1rio, a fic\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica levou \u00e0s telas de cinema \u2013 e, posteriormente, de televis\u00f5es \u2013 imagens que ficariam marcadas at\u00e9 os dias atuais. Desde a d\u00e9cada de 1930, o Nordeste \u00e9 cen\u00e1rio importante em v\u00e1rias produ\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas, no entanto as imagens apresentadas s\u00e3o cercadas de elementos que estereotipam a regi\u00e3o, a exemplo da natureza que constantemente aparece como um personagem in\u00f3spito e rude, que impulsiona a migra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Albuquerque J\u00fanior defende que todos esses eventos e pr\u00e1ticas fizeram emergir a ideia de Nordeste entre as camadas mais populares do pa\u00eds. Apesar de estarmos falando sobre acontecimentos e discursos da primeira metade do s\u00e9culo XX, \u00e9 interessante observarmos que a consolida\u00e7\u00e3o desse estere\u00f3tipo teve e ainda tem grandes impactos sobre os territ\u00f3rios semi\u00e1ridos. O Semi\u00e1rido Brasileiro apresenta condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e vegetativas superiores em rela\u00e7\u00e3o a outras zonas semi\u00e1ridas, no entanto, ainda se encontra dificuldades em aproveitar suas potencialidades. A falta de um sistema regional de \u00e1reas protegidas e a demora na efetiva\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas de preserva\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o do bioma Caatinga facilita as a\u00e7\u00f5es de desmatamentos e queimadas.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>A ideia-projeto de conviver bem com os territ\u00f3rios semi\u00e1ridos<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As primeiras movimenta\u00e7\u00f5es para fomenta\u00e7\u00e3o da ideia de conviver com os territ\u00f3rios semi\u00e1ridos, ocorreram na d\u00e9cada de 1970, atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o da sociedade civil e algumas institui\u00e7\u00f5es. Na Bahia, por exemplo, o modo de vida de algumas comunidades \u2013 hoje, conhecidas como fundos e fechos de pasto \u2013 chamaram aten\u00e7\u00e3o de algumas entidades, uma vez que elas velavam os princ\u00edpios de preserva\u00e7\u00e3o e coexist\u00eancia com as \u00e1reas semi\u00e1ridas A partir disso, diversas institui\u00e7\u00f5es, movimentos sociais, sindicatos rurais, associa\u00e7\u00f5es, cooperativas e organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, em diversos locais, come\u00e7aram a disseminar novas formas de (re)pensar esse v\u00ednculo homem-natureza, compreendendo suas particularidades e promovendo a concep\u00e7\u00e3o de que \u00e9 preciso desenvolver estrat\u00e9gias para adaptar-se ao territ\u00f3rio e, portanto, conviver com ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma entrevista realizada com Haroldo Schistek, um dos idealizadores e atual presidente do Instituto Regional da Pequena Agropecu\u00e1ria Apropriada\/IRPAA \u2013 organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental que busca prestar assist\u00eancia e desenvolver projetos que se adaptam aos povos locais, estimulando a agricultura familiar aliada a pr\u00e1ticas de valoriza\u00e7\u00e3o da Caatinga \u2013 ele me contou que a ideia-projeto da Conviv\u00eancia com o Semi\u00e1rido n\u00e3o foi inventada no escrit\u00f3rio ou em \u00e2mbito acad\u00eamico e sim, algo que foi coletivamente constru\u00eddo. Para al\u00e9m dos diversos povos envolvidos, a observa\u00e7\u00e3o da natureza semi\u00e1rida foi essencial para o fortalecimento da ideia de viver bem. Haroldo se recorda que, na \u00e9poca, come\u00e7aram a notar que o plantio de algumas monoculturas, como o milho e o feij\u00e3o, n\u00e3o tinham um bom desenvolvimento, enquanto as plantas t\u00edpicas da caatinga permaneciam resilientes. Assim, esses aspectos evidenciavam mais um comportamento errado em rela\u00e7\u00e3o a natureza do que uma estiagem, de fato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Luzineide Carvalho, a Conviv\u00eancia com o Semi\u00e1rido \u00e9 um guarda chuva que ampara todos que buscam por uma outra\/nova maneira de viver se relacionar com o Semi\u00e1rido. A \u2018Conviv\u00eancia\u2019 guarda a tradi\u00e7\u00e3o e os conhecimentos dos povos sertanejos que, atrav\u00e9s das pr\u00e1ticas de coletividade, ampliam as maneiras de viver e se relacionar com a \u201cmundaneidade semi\u00e1rida\u201d, na contemporaneidade. Assim, ao ressignificar os elementos identit\u00e1rios das gentes do sert\u00e3o, ela traz outro\/novo olhar sobre o Semi\u00e1rido, destacando suas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, delimitadas pela complexidade existente neste territ\u00f3rio. Emerge um territ\u00f3rio simb\u00f3lico-cultural, dimensionado pelos elementos materiais e imateriais presentes na produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida de homens e mulheres que vivem a mundaneidade semi\u00e1rida h\u00e1 s\u00e9culos.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Ressignificando viv\u00eancias: experi\u00eancias com comunidades tradicionais no Semi\u00e1rido Baiano<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recordo que a quest\u00e3o da \u201cConviv\u00eancia com o Semi\u00e1rido\u201d me foi apresentada durante um curso de extens\u00e3o, no primeiro per\u00edodo da minha gradua\u00e7\u00e3o em Jornalismo em Multimeios, em 2014. A proposta do curso era oferecer uma capacita\u00e7\u00e3o para estudantes da \u00e1rea da Comunica\u00e7\u00e3o, para que esses possam pensar em uma comunica\u00e7\u00e3o que promovesse as viabilidades dos territ\u00f3rios semi\u00e1ridos. Ficamos tr\u00eas dias no Centro de Forma\u00e7\u00e3o D. Jos\u00e9 Rodrigues, que fica a 12km da cidade de Juazeiro-BA. No decorrer do encontro, imergimos em quest\u00f5es, como a compreens\u00e3o das particularidades do clima semi\u00e1rido, as possibilidades de acesso e gest\u00e3o da \u00e1gua, educa\u00e7\u00e3o contextualizada com o Semi\u00e1rido, al\u00e9m de alternativas para a promo\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio nos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Todas as discuss\u00f5es eram acompanhadas de viv\u00eancias que possibilitavam que os estudantes tivessem experi\u00eancias pr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quatro anos ap\u00f3s esse acontecimento, eu estava apresentando \u00e0 comunidade acad\u00eamica os resultados do projeto \u201c(Re)exist\u00eancias: la\u00e7os de compadrio e luta pela terra\u201d, fruto do meu Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso, que investigou como os povos tradicionais de fundo de pasto se relacionam com o Semi\u00e1rido, explorando as viabilidades da viv\u00eancia com esse territ\u00f3rio. A proposta da tem\u00e1tica surgiu ap\u00f3s anos de estudos e reflex\u00f5es sobre a tem\u00e1tica, al\u00e9m de algumas experi\u00eancias vividas, ocasionalmente. Esses aspectos me instigaram a querer imergir, com maior profundidade, ent\u00e3o decidi pesquisar e vivenciar, na pr\u00e1tica, as a\u00e7\u00f5es e costumes dos moradores dos fundos de pasto para estabelecer uma viv\u00eancia ressignificada com o territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/placa-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-248\" width=\"482\" height=\"643\" srcset=\"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/placa-768x1024.jpg 768w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/placa-225x300.jpg 225w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/placa.jpg 780w\" sizes=\"auto, (max-width: 482px) 100vw, 482px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para isso, desenvolvi minha pesquisa na Comunidade de Cachoeirinha, localizada a 60km de Juazeiro-BA. Atualmente, cerca de 30 fam\u00edlias vivem no local, ocupando uma \u00e1rea de quase 1.400 hectares. A data de origem da comunidade ainda \u00e9 incerta, mas, estima-se que em 1870, a \u00e1rea j\u00e1 pertencia ao patriarca Pedro Concei\u00e7\u00e3o que, por volta da d\u00e9cada de 1890, presenteou a propriedade no casamento da filha Maria Ferreira da Concei\u00e7\u00e3o e ao seu esposo, Zacarias Sim\u00f5es da Gama. Nessas terras, eles criaram os filhos, netos, bisnetos e tataranetos que, at\u00e9 os dias de hoje, ocupam esse territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cachoeirinha compartilha de todas as caracter\u00edsticas comumente associadas aos fundos de pasto. Segundo o pesquisador Ferraro J\u00fanior, os sistemas de fundos de pastos seriam a forma mais conveniente de sobreviv\u00eancia no Semi\u00e1rido, devido \u00e0s formas de explora\u00e7\u00e3o extensivas e sobrepostas. Essas comunidades t\u00eam como principal caracter\u00edstica o uso comunit\u00e1rio das terras para a cria\u00e7\u00e3o de animais \u00e0 solta. Para Adriana Silva, a vida comunal \u00e9 o ponto chave dessas comunidades, uma vez que \u00e9 comum ver um sistema de consanguinidade, pautado por casamentos endog\u00e2micos. Assim, para al\u00e9m da depend\u00eancia um dos outros, esses povos mant\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o de ecodepend\u00eancia com a natureza semi\u00e1rida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em virtude das caracter\u00edsticas do clima semi\u00e1rido, como as chuvas irregulares e alto grau de evapora\u00e7\u00e3o, essas comunidades desenvolvem o pastoreio extensivo em todas as \u00e9pocas do ano. A caprinovinocultura tamb\u00e9m \u00e9 uma caracter\u00edstica marcante, uma vez que esses animais se adaptam bem a esses territ\u00f3rios, por serem de pequeno porte e se alimentarem da vegeta\u00e7\u00e3o nativa, se tornam mais rent\u00e1veis para os criadores.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/queijo-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-249\" width=\"423\" height=\"317\" srcset=\"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/queijo-1024x768.jpg 1024w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/queijo-300x225.jpg 300w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/queijo-768x576.jpg 768w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/queijo.jpg 1040w\" sizes=\"auto, (max-width: 423px) 100vw, 423px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cria\u00e7\u00e3o de caprinos e ovinos \u00e9 a principal atividade geradora de renda para Cachoeirinha. Algumas fam\u00edlias se dedicam a vender a carne, enquanto outras vendem os animais ainda vivos. Para al\u00e9m da renda, a carne, o leite e seus derivados, s\u00e3o consumidos, diariamente, nas mesas das fam\u00edlias. Os animais s\u00e3o soltos durante o dia, buscando na Caatinga a sua fonte de alimenta\u00e7\u00e3o. Para que elas sejam facilmente reconhecidas e n\u00e3o se misturem a outros animais, existe uma pr\u00e1tica ancestral de marcar os animais por meios de cortes na orelhas, os chamados \u201csinais de mour\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outros elementos que podemos notar \u00e9 o desenvolvimento de uma agricultura de subsist\u00eancia aliado ao cuidado e preserva\u00e7\u00e3o do bioma Caatinga. O cultivo de hortali\u00e7as e frut\u00edferas nos quintais produtivos s\u00e3o protagonizados pelas mulheres e s\u00e3o utilizados para consumo dom\u00e9stico, proporcionando uma estabilidade alimentar nas fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para al\u00e9m da alimenta\u00e7\u00e3o, em muitas comunidades, o extrativismo de plantas t\u00edpicas da Caatinga \u00e9 uma atividade que gera renda para os agricultores do norte da Bahia. Em 2004, foi criada a Cooperativa de Agropecu\u00e1ria Familiar de Canudos, Uau\u00e1 e Cura\u00e7\u00e1 \u2013 COOPERCUC, que atua junto a 450 fam\u00edlias, em sua maioria, lideradas por mulheres, de 18 comunidades. Cooperativas como a Coopercuc, buscam a valoriza\u00e7\u00e3o dos potenciais da sociobiodiversidade da Caatinga, no \u00e2mbito do extrativismo sustent\u00e1vel e da agricultura familiar. Assim, comercializam diversos produtos, como doces, geleias, compotas e polpas, para o Brasil e o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dessa forma, aos poucos, as comunidades v\u00e3o ressignificando suas rela\u00e7\u00f5es com a natureza, atrav\u00e9s de uma reapropria\u00e7\u00e3o social dos territ\u00f3rios semi\u00e1ridos. Em entrevista com Adriana Silva, que estudou durante dois anos os fundos de pasto, a pesquisadora revela que essas comunidades v\u00e3o \u201cse construindo na conjun\u00e7\u00e3o do que \u00e9 do passado, das origens desse povo, do que \u00e9 pr\u00f3prio das institucionalidades, que vem chegando para fazer as interven\u00e7\u00f5es com as tecnologias sociais, no sentido da garantia da \u00e1gua, no sentido da cultura, do guardar, e que v\u00e3o trazendo elementos novos que v\u00e3o se incorporando neste modo de vida\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aos poucos, esses aspectos de bem viver com o Semi\u00e1rido t\u00eam trazido mudan\u00e7as significativas sobre as viv\u00eancias e experi\u00eancias nas rela\u00e7\u00f5es homem-natureza. \u00c9 interessante observar, por exemplo, a ocorr\u00eancia cada vez mais frequente de pessoas que, h\u00e1 d\u00e9cadas, fizeram parte do movimento de \u00eaxodo rural em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s grandes metr\u00f3poles e, hoje, est\u00e3o retornando para a comunidade de origem, em busca de uma maior qualidade de vida e reaproxima\u00e7\u00e3o das ancestralidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 poss\u00edvel conviver com o Semi\u00e1rido. Para isso, no entanto, \u00e9 necess\u00e1rio trazer possibilidades para que as pessoas possam viver bem nesse territ\u00f3rio. Assim, \u00e9 preciso consolidar oportunidades para a melhoria do padr\u00e3o de vida dos moradores e moradoras, em especial, jovens e mulheres, incentivando o desenvolvimento do capital social, a agricultura familiar para o aumento de renda, a partir de fontes agr\u00edcolas ou n\u00e3o-agr\u00edcolas, o acesso a \u00e1gua e a educa\u00e7\u00e3o. Dessa forma, nos deparamos com os desafios de consolidar, aperfei\u00e7oar e ampliar pol\u00edticas p\u00fablicas que dialoguem com as experi\u00eancias hist\u00f3ricas das comunidades, permitindo a sua reprodu\u00e7\u00e3o cultural, social, pol\u00edtica, econ\u00f4mica e ancestral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sugest\u00e3o de links:<br>Instituto da Pequena Agropecu\u00e1ria Apropriada (https:\/\/irpaa.org\/)<br>(Re)exist\u00eancias: la\u00e7os de compadrio e luta pela terra (https:\/\/www.reexistencias.com\/)<br>Cooperativa de Agropecu\u00e1ria Familiar de Canudos, Uau\u00e1 e Cura\u00e7\u00e1 (http:\/\/www.coopercuc.com.br\/)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">*<em>Ingryd Hayara<\/em> \u00e9 estudante do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o, Cultura e Territ\u00f3rios Semi\u00e1ridos, PPGESA, vinculado \u00e0 Universidade do Estado da Bahia, UNEB. Para o Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso da gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o Social com habilita\u00e7\u00e3o em Jornalismo em Multimeios, UNEB, desenvolveu a reportagem multim\u00eddia \u201c(Re)exist\u00eancias: la\u00e7os de compadrio e luta pela terra\u201d, que trouxe narrativas de moradores e moradoras da Comunidade de Cachoeirinha, que est\u00e3o ressignificando suas viv\u00eancias e criando novos paradigmas e viabilidades de conviv\u00eancia com o territ\u00f3rio Semi\u00e1rido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ingryd Hayara Por muitas vezes, o Semi\u00e1rido Brasileiro foi representado como um espa\u00e7o geogr\u00e1fico limitado pela exist\u00eancia de uma hostilidade ambiental, caracterizada por temperaturas elevadas e natureza in\u00f3spita. Diversos foram as pr\u00e1ticas, atores e discursos que, ao longo do tempo, contribu\u00edram para que essa identidade semi\u00e1rida se cristalizasse no imagin\u00e1rio popular, como as a\u00e7\u00f5es governamentais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":245,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-244","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/244","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=244"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/244\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":396,"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/244\/revisions\/396"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/245"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=244"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=244"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=244"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}