{"id":267,"date":"2019-09-04T15:33:55","date_gmt":"2019-09-04T18:33:55","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/?p=267"},"modified":"2023-02-15T13:09:10","modified_gmt":"2023-02-15T16:09:10","slug":"a-natureza-apagada-dos-mapas-urbanos-do-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/a-natureza-apagada-dos-mapas-urbanos-do-rio-de-janeiro\/","title":{"rendered":"A natureza apagada dos mapas urbanos do Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><strong>Bruno Capil\u00e9<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A paisagem natural do Rio de Janeiro possui uma beleza que marcou e ainda marca muitos dos que contemplaram as curvas das enseadas e dos relevos cariocas. Pelo mar, os europeus boquiabertos registraram em textos e imagens as maravilhas dos arredores da cidade. Pelo ar, milhares de turistas se encantam ao pousar no aeroporto Santos Dumont. Atualmente muitos de n\u00f3s nem nos damos conta de que nossa paisagem j\u00e1 foi extremamente modificada ao longo destes s\u00e9culos. Nesse processo de modifica\u00e7\u00e3o, algumas paisagens foram veneradas e cultuadas (praias e montanhas), enquanto que outras foram deliberadamente esquecidas (ecossistemas alagados).<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n<cite><strong>os mapas urbanos deixaram de apresentar os elementos naturais, tornando-os invisibilizados. Apenas permaneceram os rios, o contorno do litoral e os principais relevos.<\/strong><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, a transforma\u00e7\u00e3o urbana modificou drasticamente o contorno de seu litoral. O desmonte dos morros do Castelo, do Senado e de Santo Ant\u00f4nio na regi\u00e3o central forneceu material para o aterro das \u00e1reas alagadas pr\u00f3ximas ao mar. O que impressiona \u00e9 que grande parte dessas \u00e1reas alagadas j\u00e1 n\u00e3o eram mais representadas nos mapas urbanos d\u00e9cadas antes. Para quem idealizava a cidade, as restingas, os mangues e outras \u00e1reas alagadas eram obst\u00e1culos para o crescimento do territ\u00f3rio urbano. Em parte, podemos afirmar que a principal causa foi a transi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica de uma tradi\u00e7\u00e3o cartogr\u00e1fica militar para uma centrada nos trabalhos e interesses de engenheiros. Vamos ver como se ocorreu essa hist\u00f3ria<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1812, o mapa Planta da Cidade de S\u00e3o Sebasti\u00e3o (Fig. 1) apresentava a regi\u00e3o do atual Canal do Mangue com a representa\u00e7\u00e3o de suas praias, areais e do manguezal de S\u00e3o Diogo. Marcado por uma tradi\u00e7\u00e3o militar de retratar o terreno e sua topografia, este mapa mostrou os ecossistemas naturais do entorno da cidade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1023\" height=\"585\" src=\"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Fig-03.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-269\" srcset=\"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Fig-03.jpg 1023w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Fig-03-300x172.jpg 300w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Fig-03-768x439.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1023px) 100vw, 1023px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Trechos e do manguezal de S\u00e3o Diogo, da &#8220;Planta da Cidade de S. Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro&#8221; &#8211; Ignacio Antonio dos Reis e pelo Paulo dos Santos Ferreira Souto, 1812. Fonte: Biblioteca Nacional Digital &#8211; Biblioteca Nacional do Brasil.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cidade teve na d\u00e9cada de 1850 um marco decisivo em seu aumento populacional com o aumento na entrada de imigrantes europeus. Esses novos corpos humanos eram mais suscet\u00edveis \u00e0s epidemias de febre amarela, e outras epidemias hoje associadas a mosquitos e \u00e1reas alagadas. A regi\u00e3o do antigo manguezal de S\u00e3o Diogo, \u00e1rea que corresponde aos arredores do Canal do Mangue, nos atuais bairros da Cidade Nova e Pra\u00e7a da Bandeira. Esta \u00e1rea alagada separava a antiga \u00e1rea de constru\u00e7\u00e3o urbana dos sub\u00farbios da freguesia do Engenho Velho. Em mapa de 1852 (fig. 2), o ambiente f\u00edsico ainda era representado na Planta da muito leal e her\u00f3ica cidade de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"992\" height=\"742\" src=\"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Planta-1852.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-270\" srcset=\"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Planta-1852.jpg 992w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Planta-1852-300x224.jpg 300w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Planta-1852-768x574.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 992px) 100vw, 992px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Trecho do Manguezal de S\u00e3o Diogo da Planta da muito leal e her\u00f3ica cidade de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro (1852) Fonte: Biblioteca Nacional. Obs: mapa rotacionado.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na d\u00e9cada de 1870, os mapas urbanos deixaram de apresentar os elementos naturais, tornando-os invisibilizados. Apenas permaneceram os rios, o contorno do litoral e os principais relevos. O aumento populacional foi acompanhado pelo aumento de epidemias relacionadas a \u00e1reas alagadas com doen\u00e7as como c\u00f3lera e febre amarela. Uma nova vis\u00e3o de mundo relacionada ao higienismo da medicina social e engenharia civil tornou os ecossistemas alagados pouco atraentes para uma cidade que se modernizava. A Planta da Cidade de Sn. Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro do engenheiro arquiteto Luiz Schreiner representa a regi\u00e3o como se o Canal do Mangue fosse j\u00e1 finalizado. Por\u00e9m, ainda ilustra os alagadi\u00e7os das \u00e1reas das fozes dos rios Maracan\u00e3 e Joana (Figura 3, outra abaixo).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/PLanta-1872-1024x682-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-268\" srcset=\"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/PLanta-1872-1024x682-1.jpg 1024w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/PLanta-1872-1024x682-1-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/PLanta-1872-1024x682-1-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Trecho da Planta da Cidade de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro de Luiz Schreiner (1872). Fonte: Biblioteca Nacional. Obs: Mapa rotacionado.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme as cidades cresciam e se transformavam, os mapas urbanos deixaram de representar os ambientes naturais dentro e fora da cidade. No final do s\u00e9culo XIX, os planos urban\u00edsticos da cidade do Rio de Janeiro j\u00e1 quase n\u00e3o apresentavam os ecossistemas naturais que ainda existiam. Em 1903, em meio \u00e0s grandes reformas urbanas, o mapa de Pereira Passos nem apresentava mais as antigas \u00e1reas alagadas. Apenas mencionava a cidade que viria a ser com linha tracejadas representando futuras ruas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"784\" src=\"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Planta-1903-1-1024x784-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-271\" srcset=\"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Planta-1903-1-1024x784-1.jpg 1024w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Planta-1903-1-1024x784-1-300x230.jpg 300w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Planta-1903-1-1024x784-1-768x588.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Trecho da Planta dos Melhoramentos Projetados pelo prefeito dr. Francisco Pereira Passos (1903). Fonte: Biblioteca Nacional. Obs: mapa rotacionado.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pol\u00edticos imbu\u00eddos das ideias sanit\u00e1rias de m\u00e9dicos e engenheiros apagaram simbolicamente as \u00e1reas alagadas dos mapas urbanos do Rio de Janeiro. Esse foi o caminho para as pequenas e grandes reformas que transformaram materialmente esses ecossistemas de lagoas, brejos e manguezais. Ser\u00e1 que estes esfor\u00e7os eliminaram por completo estes ambientes? Ou ser\u00e1 que algumas caracter\u00edsticas ambientais persistiram at\u00e9 os dias de hoje?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>Este texto \u00e9 uma parte do artigo publicado na Revista Terra Brasilis em setembro de 2019 \u2013&nbsp;<\/em><a href=\"https:\/\/journals.openedition.org\/terrabrasilis\/4306\">Apagando a natureza: o&nbsp;desaparecimento dos ecossistemas alagados nos mapas urbanos do Rio de Janeiro<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Capil\u00e9 A paisagem natural do Rio de Janeiro possui uma beleza que marcou e ainda marca muitos dos que contemplaram as curvas das enseadas e dos relevos cariocas. Pelo mar, os europeus boquiabertos registraram em textos e imagens as maravilhas dos arredores da cidade. 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