{"id":280,"date":"2018-06-25T14:12:10","date_gmt":"2018-06-25T17:12:10","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/?p=280"},"modified":"2023-02-15T13:09:26","modified_gmt":"2023-02-15T16:09:26","slug":"as-caatingas-e-o-estado-imperial","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/as-caatingas-e-o-estado-imperial\/","title":{"rendered":"As caatingas e o estado Imperial"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><strong>Gabriel Pereira de Oliveira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Terra seca, ch\u00e3o duro e rachado, \u00e1rvores despidas de folhas, falta d\u2019\u00e1gua. As imagens do bioma da caatinga aparecem hoje como \u00f3bvias e consagradas em torno da seca. Trata-se, afinal, da parte onde menos chove no Brasil e que muito frequentemente \u00e9 pauta de notici\u00e1rios em fun\u00e7\u00e3o da escassez h\u00eddrica, evocando sensa\u00e7\u00f5es de como\u00e7\u00e3o e caridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tais paragens, entretanto, est\u00e3o longe de ser um deserto est\u00e9ril, calcinado pelo sol abrasador dos tr\u00f3picos. Ali\u00e1s, em meio a uma rica diversidade socioambiental, essa \u00e1rea constitui a regi\u00e3o de clima semi\u00e1rido com maior m\u00e9dia de pluviosidade e com uma das maiores densidades populacionais, talvez at\u00e9 a maior, do planeta (MALVEZZI, 2007: 10; AB\u2019SABER, 1999: 30).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De origem ind\u00edgena, o pr\u00f3prio nome da vegeta\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o deixa claro esse car\u00e1ter sempre incerto e mutante do clima, marcado por duas esta\u00e7\u00f5es muito bem definidas, embora de dura\u00e7\u00e3o vari\u00e1vel. Caatinga significa \u201cmata branca\u201d, fazendo alus\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia de boa parte das \u00e1rvores de perderem suas folhagens nos per\u00edodos de estio, dando \u00e0 vegeta\u00e7\u00e3o uma cor pardacenta. Apesar das dificuldades devido \u00e0 falta d\u2019\u00e1gua, sobretudo quando a estiagem se prolonga por v\u00e1rios meses, essa \u00e9poca chamada de ver\u00e3o tamb\u00e9m tem suas belezas. Para Jos\u00e9 Martins d\u2019Alencastre (1831-1871), que atuou como promotor no Piau\u00ed entre 1851 e 1857, esses momentos permitiam desfrutar um \u201cluar brilhante \u2013 n\u00e3o h\u00e1 natureza mais encantadora\u201d (D\u2019ALENCASTRE, 1857).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por\u00e9m, logo v\u00eam as primeiras chuvas e, ap\u00f3s longos e ardentes meses de ver\u00e3o, a natureza se transforma. Bastariam chegar nuvens carregadas para poder ouvir o zumbido mais forte dos insetos, para ver uma infinidade de borboletas coloridas em meio ao aroma de flores diversas. De acordo com d\u2019Alencastre, \u201ccom o aparecimento do inverno, os campos se cobrem da mais linda e abundante verdura, as \u00e1rvores se vestem de novo, e a natureza como que parece rir-se por entre a vegeta\u00e7\u00e3o que pulula como por encanto\u201d (D\u2019ALENCASTRE, 1857).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante da ideia recorrente de que o Brasil teria como sua grande marca a natureza exuberante, com toda a pujan\u00e7a tropical, a ocorr\u00eancia de uma regi\u00e3o t\u00e3o peculiar como a das caatingas deve chamar bastante aten\u00e7\u00e3o. Especialmente o s\u00e9culo XIX foi um per\u00edodo muito interessante nesse sentido, quando o Estado mon\u00e1rquico precisou lidar diretamente com uma conforma\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio nacional que envolvesse \u00e1reas como os chamados sert\u00f5es secos do Norte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um trabalho muito relevante a esse respeito foi feito em 1824 pelo bot\u00e2nico germ\u00e2nico Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868), quando lan\u00e7ou suas reflex\u00f5es sobre \u201cA Fisionomia do Reino Vegetal no Brasil\u201d. Nesse trabalho, ele buscou dar conta da diversidade ecol\u00f3gica do pa\u00eds rec\u00e9m-independente que ele percorrera alguns anos antes, e dividiu o territ\u00f3rio brasileiro em cinco reinos fitogeogr\u00e1ficos, associando cada um a elementos da mitologia grega. Anos depois, por volta de 1850, Martius at\u00e9 representou esses dom\u00ednios vegetais no mapa reproduzido abaixo (fig. 2).<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"469\" height=\"205\" src=\"http:\/\/localhost\/portal-tcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/im2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-281\" srcset=\"http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/im2.jpg 469w, http:\/\/www.mast.br\/portaltcn\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/im2-300x131.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 469px) 100vw, 469px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fig. 2.; Fig. 2a: Tabula geographica Brasiliae et terrarum adjacentium exhibens itenera botanicorum et florae brasiliensis quinque prov\u00edncias. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/bndigital.bn.gov.br\/acervodigital\/\">Acervo Digital \u2013 Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro<\/a>.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentre os dom\u00ednios vegetais a compor o territ\u00f3rio gigantesco do Imp\u00e9rio brasileiro, estava o Reino das Hamadr\u00edades, correspondente \u00e0s \u00e1reas secas do Norte do Imp\u00e9rio, as chamadas caatingas. Como, em geral, as \u00e1rvores dessa regi\u00e3o perdiam suas folhas a cada esta\u00e7\u00e3o de estiagem e se revigoravam t\u00e3o logo chegavam as chuvas, Martius associou tal por\u00e7\u00e3o do Brasil \u00e0s hamadr\u00edades, ninfas gregas dos bosques de carvalhos que nasciam e morriam junto com as \u00e1rvores onde moravam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A generaliza\u00e7\u00e3o no mapa dessa \u00e1rea seca do reino das Hamadr\u00edades por parte consider\u00e1vel de prov\u00edncias do Norte mostra o quanto aquelas paragens eram ainda n\u00e3o muito bem conhecidas na capital do Imp\u00e9rio brasileiro no s\u00e9culo XIX. Tratava-se de uma regi\u00e3o distante da Corte do Imp\u00e9rio e de dif\u00edcil comunica\u00e7\u00e3o com o distante Rio de Janeiro. Ali\u00e1s, a separa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capital imperial n\u00e3o era somente medida em l\u00e9guas de dist\u00e2ncia, em diversidade de vegeta\u00e7\u00e3o ou clima, mas era tamb\u00e9m um isolamento das gentes, de modo geral bastante apartadas do ideal de cidad\u00e3o brasileiro. Diante das clivagens regionais, as popula\u00e7\u00f5es do interior do Norte \u00e1rido pareciam muito estranhas ao corpo da na\u00e7\u00e3o, sendo mesmo um grande desafio sentir-se parte de um todo nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na vis\u00e3o de muitos membros que orbitavam em torno da Corte, os sert\u00f5es \u00e1ridos do Norte eram perigosos, um lugar de atraso e barb\u00e1rie, onde a lei e a ordem mon\u00e1rquica n\u00e3o haviam conseguido chegar. Mesmo para boa parte dos habitantes da regi\u00e3o que Martius associou \u00e0s Hamadr\u00edades, era muito complicado reconhecer-se como parte da na\u00e7\u00e3o Brasil sediada no distante Rio de Janeiro. Houve, inclusive, em alguns momentos no Norte a oficializa\u00e7\u00e3o de uma secess\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao Imp\u00e9rio brasileiro, como em revoltas e rebeli\u00f5es ao longo do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando esteve em prov\u00edncias do Norte entre 1859 e 1861, o bot\u00e2nico fluminense Freire Alem\u00e3o (1797-1874) relatou que ali era comum a avers\u00e3o ao governo mon\u00e1rquico do Rio de Janeiro. De acordo com ele, a \u201cRep\u00fablica \u00e9 o sonho dourado deste gente\u201d. Ali\u00e1s, o pr\u00f3prio Rio de Janeiro aparecia em tal regi\u00e3o \u201ccomo um pa\u00eds estrangeiro\u201d (ALEM\u00c3O, 2011).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como analiso em meu trabalho de doutorado que venho desenvolvendo no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro sob a orienta\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Augusto P\u00e1dua, incorporar essa extensa e povoada regi\u00e3o de caatingas ao corpo pol\u00edtico imperial foi um desafio de grade relev\u00e2ncia ao governo brasileiro no s\u00e9culo XIX. E mais do que uma quest\u00e3o de pura pol\u00edtica com imposi\u00e7\u00f5es tecidas desde o Rio de Janeiro, essa foi uma experi\u00eancia que envolveu aspectos do clima, saberes e projetos para tentar controlar a frequ\u00eancia das chuvas e variados protagonistas, com trocas, negocia\u00e7\u00f5es, alian\u00e7as ou desaven\u00e7as entre gentes das mais diferentes partes do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-left is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-63375db1 wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"http:\/\/portaltcn.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/As-Caatingas-e-o-ideal-de-na%C3%A7%C3%A3o.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Baixe o artigo<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gabriel Pereira de Oliveira Terra seca, ch\u00e3o duro e rachado, \u00e1rvores despidas de folhas, falta d\u2019\u00e1gua. 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