O território, como mostra Haesbaert (2014), é um dos cinco grandes conceitos que compõem a constelação de ideias tão caros à ciência geográfica, embora não seja exclusivo a esta (a biologia, a ciência política, a filosofia e a sociologia também o abordam, cada uma à sua maneira).

Mesmo dentro da geografia, entender o território é uma tarefa árdua, pois existem múltiplas formas de compreender sua dimensão (política, cultural, econômica, natural). Por isso, para compreender a relação entre território e
conflitos mundiais, é necessário acionar a dimensão mais clássica e conhecida: a política.

O francês Jean Gottmann, no clássico artigo “The evolution of the concept of territory” (1975), afirma que o conceito de território é um dispositivo psicossomático. Ou seja, é uma ágama de elementos psicológicos (sentimentos, percepções) e materiais (físico, controle, recursos) que visa, por meio de quem o utiliza, organizar o espaço conforme seus objetivos. Portanto, o território sempre foi objeto de disputa e motivo de conflito entre diferentes agentes de
poder.

Até meados do século XX, os conflitos mundiais pelo território entre impérios (Otomano, Russo, Austro-Húngaro, Japonês) estavam vinculados ao controle e posse das terras e seus recursos. Exemplos são a Conferência de Berlim, com a partilha do continente africano pelas potências europeias, e a disputa sino-japonesa pela Manchúria.

Após a Segunda Guerra Mundial, os conflitos entre Estados-nação e a própria noção de território, no sentido político, ultrapassaram a estrutura anterior. Não se trata mais apenas da posse e controle das terras. Agora, a dimensão política territorial e os conflitos abrangem outros aspectos além da porção de
terra.

No mundo moderno, o conceito de território e os conflitos mundiais incorporam questões como:
[a] controle dos céus (espaços aéreos e quem transita sobre eles. No conflito entre Rússia e Ucrânia, países europeus proibiram empresas aéreas russas de sobrevoar seus territórios, e a Rússia fez o mesmo com empresas europeias, estadunidenses e asiáticas, causando prejuízos econômicos a ambos);
[b] disputas territoriais marítimas (como as tensões no Mar do Sul da China,
onde Pequim, Filipinas, Vietnã, Malásia e outros disputam áreas por acesso a
recursos naturais e posições estratégicas); e
[c] domínio dos meios técnico-científico-informacionais (controle e regulamentação da internet e da informação que por ela circula. A Rússia, por exemplo, exige que dados de seus cidadãos estejam em bancos fisicamente
localizados no país).

Portanto, os conflitos mundiais em curso mantêm o objetivo clássico de controlar o território conforme os interesses de quem o domina. Contudo, como alertava Gottmann (2012), a compreensão do território nesses conflitos se transformou. Existe uma noção mais sofisticada, em que as disputas consideram questões de organização coletiva das populações que vivem nesses espaços, e não apenas o domínio dos recursos e da terra.

Referências Bibliográficas
Gottmann, J. (2012). A evolução do conceito de território. Boletim
Campineiro De Geografia, 2(3), 523–545. https://doi.org/10.54446/bcg.v2i3.86
HAESBAERT, Rogério. Viver no limite: território e
multi/transterritorialidade em tempos de in-segurança e contenção. Rio de Janeiro: Bertrand, 2014.

 

Jonathan Christian Dias dos Santos atualmente é Doutorando em Geografia no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (PPGGEO/UFRRJ) e professor substituto no Departamento de Geografia da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense/Universidade do Estado do Rio de Janeiro (DEGEO – FEBF/UERJ). E-mail:
Jonathan_ christian95@hotmail.com

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