Victor Hugo Arona do Monte


A verdade é que ainda não sabemos como isso tudo começou. Mas uma coisa é certa: no fim de 2019, um grupo de pessoas na cidade chinesa de Wuhan procurou atendimento médico com sintomas de uma até então desconhecida pneumonia. Alguns desses pacientes possuíam um vínculo entre si: trabalhavam no Mercado de Frutos do Mar de Huanan, que também comercializava carne de animais silvestres. O local foi rapidamente fechado pelo governo e, algum tempo depois, estudos chegaram à conclusão de que já estava espalhado por aí um novo tipo de coronavírus.

A partir daí, o mundo passaria por uma grande reviravolta. O vírus atingiria todos os continentes, mudando inclusive seus epicentros de contágio: em um primeiro momento, do leste asiático para o continente europeu e, depois, da Europa para Estados Unidos e Brasil. Ao longo do tempo, a situação se agravaria cada vez mais e, no final de julho, totalizamos quase 17 milhões de infectados e os mortos somam por volta de 662 mil. Isso é nada mais do que 130 vezes o número que nós registramos no momento em que a OMS declarava o estágio de pandemia, há pouco mais de quatro meses atrás.

Medidas de quarentena transformam Pequim em uma cidade-fantasma (Fonte: Folha de São Paulo)

Com isso, desde o início do que se configurou uma das maiores crises sanitárias da história humana, que acabou ficando marcada por também induzir inúmeras consequências sociopolíticas e econômicas, muitas pessoas buscaram entender o que estava acontecendo e descobrir a dimensão do problema colocado. Enquanto isso, a caótica realidade, que nos faz gerar uma grande quantidade de dados sobre o assunto ao mesmo tempo que faz as informações sobre ele se tornarem rapidamente obsoletas, tornou (e ainda torna) essa missão bem mais difícil.

Nesse sentido, esse texto surge de uma nova tentativa de análise sobre parte do que temos visto e vivido nos últimos meses, e se coloca ao lado de observações feitas por profissionais da área da saúde, jornalistas e economistas. Porém, mais especificamente, busco apresentar algumas possibilidades de aproximação dessas discussões com a ciência geográfica, mais especificamente aquelas feitas através da globalização e da noção de rede. Com isso, será possível responder uma pergunta mais ampla: de que forma a Geografia pode contribuir para a questão da pandemia de COVID-19?

O fenômeno da globalização e a pandemia

É inegável que um processo que irá, de certa forma, favorecer trocas entre diferentes pontos do mundo é capaz de contribuir para uma maior velocidade de contaminação. Entendida de forma simplificada, a globalização é o fenômeno que possibilita um intercâmbio entre localidades que até algum tempo atrás não se comunicavam ou se comunicavam de forma mais limitada. No contexto de uma pandemia como a atual, em que o vírus passou a ser carregado pelos seres humanos, entre os mais diversos tipos de trocas ao redor do globo o mais importante a ser entendido é o que envolve o deslocamento de pessoas.

Contudo, além da sua relação com o contágio, a globalização também pode ser vista como um facilitador nas medidas de controle e tratamento de uma infecção que se espalha pelo mundo. Para isso, podemos nos apropriar do que discutiu o geógrafo Milton Santos em muitos de seus trabalhos, mais especificamente o seu conceito de meio técnico-científico- informacional que, para o geógrafo, é o estágio atual da ação humana no espaço geográfico. Quando a Terceira Revolução Industrial gera as condições para a massificação e popularização do uso das telecomunicações, por exemplo, o que acontece na Itália pode rapidamente chegar na Coreia do Sul ou aqui no Brasil. Assim, através do desenvolvimento das tecnologias da informação, é possível saber mais sobre um vírus e ter a possibilidade de combatê-lo.

Porém, a globalização precisa ser encarada de maneira crítica. Utilizando novamente as ideias de Milton Santos, a globalização costuma ser apresentada como uma fábula de um mundo completamente interconectado. Porém, quando consideramos o funcionamento do sistema capitalista, percebemos as perversidades desse fenômeno. Em primeiro lugar, o deslocamento pelo globo não é permitido a todas as pessoas, mas apenas para quem tem a possibilidade de fazê-lo, já que viagens custam dinheiro. Nesse sentido, em um primeiro momento da pandemia, são principalmente as pessoas que conseguem pagar por sua circulação aérea, por exemplo, que irão direcionar o processo de contágio.

Da mesma forma que  gera uma limitação objetiva nos fluxos de pessoas, o sistema também gera uma desigualdade na distribuição das coisas ao longo do espaço geográfico, um exemplo que tem a ver com o que o teórico Léon Trotsky chamou – seguido por Neil Smith, que levou essa discussão para a Geografia – de lei do desenvolvimento desigual e combinado. Isso significa que o meio técnico-científico-informacional não se estende por todo o planeta, e que podem ainda existir locais que contam com estágios menos complexos do meio (como o meio técnico ou o meio técnico-científico).

Mas o que isso tem a ver com a pandemia do novo coronavírus? Em poucas palavras, nas mais diversas escalas, existe uma desigualdade combinada – e intencional – entre regiões ricas e regiões pobres. Nesse sentido, as áreas ricas concentram recursos materiais, e nelas as informações podem circular melhor. Em contrapartida, nas áreas pobres, as mesmas informações não circulam ou circulam com muito mais dificuldade. Vale dizer que quanto maior a desigualdade socioespacial, mais gritante é a diferença de recursos e informação entre as regiões. Em um contexto de pandemia, isso prejudica a comunicação entre os diversos pontos do mundo e dificulta a entrega e a utilização de todo material destinado ao tratamento e cura da infecção, atrapalhando tentativas de controle de um maior contágio pelo mundo e favorecendo um aumento no número de infectados e mortos.

Outro elemento importante para uma análise geográfica global da pandemia está relacionado com a economia. A interdependência construída pelo desenvolvimento dos fluxos comerciais na globalização em uma situação dessas também é capaz de gerar condições para problemas graves. Isso porque, em uma economia globalizada, um país que sofre com uma doença pode precisar interromper a sua produção e o seu consumo, o que acaba interferindo na produção e no consumo de outros países e gerando uma reação em cadeia. Portanto, um outro problema de uma pandemia como a atual – tão grave quanto os propriamente sanitários – pode estar muito mais ligado com consequências político-econômicas.

Os sistemas de saúde e o conceito de rede

Quando falamos das repercussões políticas da contaminação global com o novo coronavírus, poderíamos analisar a pandemia na perspectiva dos Estados e da sua forma de gerir o território para um controle e uma posterior erradicação da infecção, a exemplo da Alemanha, do Vietnã ou da Espanha. Porém, aqui apresento apenas mais um elemento, que diz respeito à um tipo específico de gestão territorial, essencial em uma situação de pandemia: a consolidação um sistema de saúde preparado e capaz de resolver os problemas existentes em uma cidade ou mesmo em um país.

Atendimento de saúde realizado com os povos indígenas (Fonte: Ministério da Saúde)

Na medida em que um sistema é, por definição, um conjunto de elementos organizados que se relacionam e dependem um do outro, o conceito de rede do ponto de vista geográfico pode ser utilizado para uma melhor compreensão espacial de um sistema: no caso desse texto, de um sistema de saúde. Nesse sentido, a noção de rede pode ser entendida como um conjunto de locais da superfície terrestre que estão conectados ou interligados entre si, possibilitando o fluxo do que é necessário circular.

Logo, um sistema de saúde eficiente precisa funcionar de forma a conectar o máximo possível de locais, podendo, com suas inúmeras estratégias de ação, coletar mais informações do espaço — sobre o número de infectados, por exemplo — e interagir com as pessoas que nele estão. E, assim, para além das medidas de segurança e controle do contágio que costumam ser feitas por outros atores sociais, esse sistema de saúde mais articulado melhor atinge um fundamental objetivo social: tratar e curar pessoas.

Nesse caminho de construção de um verdadeiramente democrático sistema de saúde, que se faz presente nos mais diversos locais, funciona de forma interconectada e é acessível para toda a população, a noção de meio técnico-científico-informacional por todo o espaço geográfico pode realmente acontecer. Porém, para isso, as estruturas sociais precisam ser repensadas, gerando mudanças em outras áreas, além da saúde. Enfim, superar as desigualdades existentes na sociedade, dos mais diversos tipos, será a chave para resolver o problema de uma pandemia, mas também muitos outros problemas que fazem sofrer os seres humanos.

Considerações finais

Em síntese, a Geografia pode contribuir muito com as discussões envolvendo não somente a pandemia do COVID-19, mas também todas as que já aconteceram ou poderão novamente acontecer. Como foi dito, através do entendimento do fenômeno da globalização e do conceito de rede aplicado à saúde coletiva, assim como a noção da gestão do território e a compreensão da produção do espaço, a ciência geográfica é capaz de oferecer algumas respostas para questões que podem vir a surgir, no que podemos chamar de Geografia das Pandemias. Neologismos à parte, a Geografia Médica e da Saúde já existe e tem um alto potencial de analisar essas questões.

Mesmo com máscaras, a arte respira (Fonte: Thanassis Stavrakis)

Apesar do (não tão) novo coronavírus ainda possuir baixa letalidade, ele se dissemina facilmente e, sem medidas de prevenção adequadas, é capaz de atingir uma grande quantidade de pessoas em pouquíssimo tempo. Assim, a maior preocupação ligada ao novo vírus está na sua capacidade de sobrecarregar os sistemas de saúde, o que faz surgir a necessidade das políticas de distanciamento social.

Para além disso, ao contrário do que algumas pessoas colocaram até então, o vírus já mostrou que não é democrático: ele afeta certas parcelas da população de forma muito mais intensa do que outras. Assim como os grupos de risco citados comumente, como os idosos e pessoas com problemas respiratórios e cardiovasculares crônicos, as pessoas mais pobres também são as que sofrem muito com a pandemia. Com uma rotina de trabalho de intensa exploração, uma alimentação pobre em nutrientes (que contribui para um quadro de baixa imunidade); enfim, com condições de vida muito distantes do mínimo de dignidade, o cotidiano dos trabalhadores mostram que os maiores problemas nos dias de hoje têm, acima de tudo, uma origem socioeconômica.

Por fim, vale dizer que, em casos como esse em que estamos, cabe ouvir as instruções dos profissionais da área, como os especialistas em infectologia e epidemiologia, para evitar um agravamento das condições sanitárias. Também se faz primordial, por esses e outros motivos, valorizar as pesquisas científicas e assegurar a plena atuação do profissional de saúde.

Afinal, o maior remédio para o medo é a informação.

Victor Hugo Arona do Monte é Graduando em Geografia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Professor e Pesquisador nas áreas de Biogeografia, Ecologia e Teoria da Geografia.

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